LITERATURA - O outro lado dos contos-de-fadas
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 01 de outubro de 2008
Nelson Sato<br> Reportagem Local 
Imagine a Branca de Neve, a Cinderela e a Bela Adormecida reunidas numa mesma história. Imagine as três trocando correspondências entre si para falar das angústias que enfrentam, bem distantes do glamourzinho difundido sobre elas pelos contos-de-fadas. A escritora paulista Índigo colocou essa história no papel e a publicou sob o título ''Livro das Cartas Encantadas''.
É o mais recente livro da autora, que esteve em Londrina na semana passada participando do festival literário Londrix. Nascida em Campinas (SP), ela é uma das representantes da nova literatura infanto-juvenil brasileira. Além do ''Livro das Cartas Encantadas'', já publicou ''Saga Animal'' (2001), ''Caixinha de Madeira'' (2003), ''Festa da Mexerica'' (2003), ''Perdendo Perninhas'' (2006), ''Como casar com André Martins'' (2006), ''Cobras em Compota'' (2006), ''O Segredo do Vô Juvêncio'' (2006) e ''A Maldição da Moleira'' (2007).
Este último entrou na lista de finalistas do Prêmio Jabuti desta temporada. Em 2006, o volume de contos ''Cobras em Compota'' foi vencedor do prêmio ''Literatura para Todos'', promovido pelo Ministério da Educação. Índigo escreve para crianças e pré-adolescentes, mas suas narrativas audaciosas já frequentam estantes de adultos.
Você escreve para a garotada, mas dizem que alguns de seus livros são muito lidos por adultos. Como é isso?
Sou uma autora de livros infanto-juvenis, embora ache essa classificação complicada, porque é difícil definir a idade de cada livro. O livro não tem idade. Quem tem idade é o leitor. O livro está lá para quem quiser ler: com 30, 12 ou oito anos. De qualquer forma, a temática de meus livros é juvenil e a grande maioria de meus leitores estão nessa faixa etária. Mas descobri que os adultos gostam muito do ''A Maldição da Moleira'', principalmente mulheres grávidas e casais que estão tendo seu primeiro filho.
A que você atribuiu esse interesse?
Não sei. O livro conta a história de um bebezinho de três meses cuja avó tem um fetiche, que é apertar sua moleira. Toda vez que ela aperta, o nenê adquire consciência e começa a narrar a própria vida: como é o processo de começar a engatinhar, como é conhecer o mundo, etc. A história acaba quando ele aprender a falar. Acho que, entre os meus livros, é aquele que tem a linguagem mais sofisticada e o humor mais elaborado.
Como você trabalha o texto para conquistar - e não espantar - o leitor infantil ou juvenil?
Procuro escrever um texto sincero. Tento entrar na mentalidade e velocidade deles. Quando a história traz uma fala de um menino de 12 anos, por exemplo, tenho o cuidado de ser muito autêntica na maneira em que ele se expressa. Uma coisa que me irrita na literatura juvenil é o cara tentando parecer um adolescente falando. Fica bobo, fica um texto infantilizado. Já ouvi muitas crianças dizerem: ''você escreve que nem a gente''. Isso é um elogio muito grande, porque acho que consegui ter uma sintonia com a maneira deles se expressarem.
Você lia muito quando criança?
O livro ''O Sofá Encantado'', da Lygia Bojunga Nunes, foi um dos primeiros que me envolveram. A impressão era que eu tinha entrado naquele universo criado por ela. A norte-americana Laura Ingalls Wilder foi outra autora que me marcou bastante na infância. Ela fez uma série de sete livros chamada ''Uma Casa na Campina'', que falava sobre pioneiros europeus que foram para os Estados Unidos construir um país. E o Monteiro Lobato me impressionou pela grandeza do mundo que criou, com muitas personagens e muitos ambientes. O gosto pela leitura veio com ele.
Você lia histórias em quadrinhos?
Teve a fase de ler ''A Turma da Mônica'' e a ''Luluzinha''. Aí entrou uma época que eu não peguei a literatura infanto-junvenil, porque quando acabou a fase infantil eu pulei de cara para a literatura adulta de Agatha Christie e Machado de Assis. Eu tinha 12 anos e me sentia adulta lendo Machado. Fui atrás da obra dele, daquilo que eu conseguia digerir. Li também ''Christiane F. - drogada e prostituída'', que todo mundo lia na época. Quando eu via um livro com ilustrações, eu dispensava. Achava que era para crianças. Queria ir para os clássicos, queria saber o que era Jorge Amado, que todo mundo falava. Hoje em dia, estou lendo o que não li na época: as obras intermediárias entre a infância e a vida adulta.
Como está o mercado brasileiro no segmento infanto-juvenil?
De dez anos para cá, houve uma grande melhora na qualidade dos lançamentos. Algumas editoras contribuíram muito para isso: a Cosac & Naify; a SM, com seu catálogo de autores franceses muito ousados; a Moderna, que reformulou todo o catálogo depois que foi vendida para um grupo espanhol dando oportunidade para que títulos antigos fossem reeditados e adaptados pelos autores. Enfim, estamos vivendo uma fase muito boa.
Você já escreveu literatura ''para adultos''?
Nunca. Não tenho vontade e acho que não tenho competência. É um público que não me interessa. Gosto muito de escrever literatura infanto-juvenil. É o que faço melhor, é onde eu me encontrei.
Seu nome costuma ser associada na imprensa à geração de autores(as) surgidos(as) na internet. Qual é a função do blog, hoje em dia, pra você?
Eu comecei publicando contos na internet. Na verdade, era uma tentativa de escrever contos porque não via muita qualidade naquilo a ponto de ser publicado em livro. Achava que ninguém me pagaria por aqueles textos. Achava que deveria ficar na internet mesmo, porque a rede pra mim é quase o lugar onde coloco as coisas descartáveis e pelas quais não tenho apego. Tenho a convicção de que o que escrevo no blog não é o meu melhor. Ali, não coloco os textos que considero importantes, que quero trabalhar e revisar.
Quando veio a vontade de publicar um livro?
Foi quando escrevi o ''Saga Animal'' (2001), meu primeiro romance infanto-juvenil. Vi que era uma narrativa especial.
Você já vive de literatura?
Consegui um objetivo que é viver de escrita, não apenas de literatura. Também faço muitas traduções e textos que encomendam para revistas.


