Em 1933, a poeta Cecília Meireles (1901-1964) organizou uma exposição no elegante salão da Pró-Arte, no Rio de Janeiro. Seus desenhos, que retratavam manifestações populares como o samba e o candomblé, foram levados no ano seguinte a Portugal, onde a autora realizou três conferências, uma das quais chamada ''Batuque, Samba e Macumba''.
As idéias da conferência, além dos estudos pictóricos, foram registradas em livro em 1983, numa edição da Funarte, dada de brinde aos clientes de um banco que a co-patrocinou. Só agora, 70 anos após a exposição, elas podem alcançar um público mais amplo.
No decênio de 1930, o Brasil voltava-se para o próprio umbigo. No mesmo ano em que Cecília expôs suas aquarelas, Gilberto Freyre publicou ''Casa Grande e Senzala'', Jorge Amado lançou ''Cacau'' e José Lins do Rego deu a lume ''Doidinho''. Três anos antes, tínhamos ''O Quinze'', de Raquel de Queiroz e ''Aquarela do Brasil'', de Ary Barroso. ''No Tabuleiro da Baiana'' é gravada em 1937.
É justamente com a figura da baiana que Cecília inicia sua panorâmica sobre as tradições dos negros brasileiros. Primeiro, temos a ''baiana autêntica'', que, paramentada com saia de roda, rendas, xale, miçangas e balangandãs, exibe suas guloseimas, para a ''tentação de todas as crianças cariocas'' e ''do Brasil todo''.
Em seguida, aparece a ''baiana de carnaval''. Vestida de forma estilizada e com ''requintes de faceirice'', a ''cabrochinha sestrosa'' caminha para as rodas de samba e de batuque que, em meio aos cortejos de blocos e cordões, animam o carnaval carioca. Cecília se detém para descrever os movimentos dos folguedos de momo, antes de seguir para a última parte de sua mostra, a macumba.
Trata-se da face sagrada da manifestação mundana pintada antes. Mas Cecília nunca fala de religião e sim de ''cerimônia mágica''. O som dos atabaques contribuiria para ''um encantamento profundo, de onde exala o torpor misterioso, e a invencível atração da selva africana''. Aos ''pedidos ingênuos'' feitos aos santos nos rituais de candomblé contrapõem-se a prática do mal do canjerê, a encruzilhada e a galinha preta.
Desvinculada desses elementos sombrios, porém, a macumba revelaria ''uma doçura selvagem''. A autora se esforça em valorizar o negro. Apesar das ''consequências perigosas'' da capoeira, ''a índole do negro é boa e conciliadora''. Embora o carnaval tenha caráter ''licencioso e grosseiro'', os afro-brasileiros emprestam a ele distinção e respeito.
Intelectual sensível, Cecília Meireles procurou entender a contribuição do negro para a cultura nacional. Sua perspectiva, contudo, é sempre a do outro, a do branco civilizado. Não devemos nos esquecer do público a que se destinavam seus pensamentos e desenhos, a elite liberal da Pró-Arte e a platéia metropolitana dos colóquios portugueses. Diante dessa audiência, a poeta pintou a boa baiana, a mulata faceira, o negro de alma pura e selvagem que sonha com sua ''choça'' africana.
Hoje sabemos que este é um olhar ingênuo, entre o deslumbrado e o assustado. Um olhar que procura decifrar o mistério de fenômenos que lhe são estranhos, que deseja a todo custo integrar o negro à sociedade brasileira, ainda que o veja sempre de cima para baixo; de fora, nunca por dentro.


SERVIÇO
- Batuque, Samba e Macumba - Estudos de Gesto e de Ritmo (1926-1934), de Cecília Meireles. Editora: Martins Fontes. Preço: R$ 44,50 (112 páginas.)

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