Já lá se vão quase dez anos desde que Luis Fernando Verissimo lançou o primeiro volume de ''As Comédias da Vida Privada'', série de crônicas em que o escritor gaúcho transformou em riso as sutis tiranias, as infidelidades, as paixões fulminantes, os ódios mortais. Tornou conhecidos, assim, personagens como o marido do Dr. Pompeu, o Mendoncinha, a mulher do Silva, a Regininha. Para recolocar essas histórias de volta às prateleiras das livrarias, a editora Objetiva decidiu não apenas relançar a obra como acrescentar 35 novas crônicas, inéditas em livro. Surge, portanto, ''O Melhor das Comédias da Vida Privada'' (296 páginas, R$ 33), que já está à venda.
Ao mesmo tempo, a Globo lança em DVD uma pequena jóia para os fãs: cinco episódios da série inspirada no livro e que foi ao ar entre 1994 e 97. A seleção foi feita pelo diretor Guel Arraes, que apresenta o DVD e a série de personagens interpretados por um time de primeira linha, como Débora Bloch, Marco Nanini, Fernanda Torres e outros. Os episódios são ''A Comédia da Vida Privada'', ''Casados x Solteiros'', ''A Casa dos Quarenta'', ''Sexo na Cabeça'' e ''Mãe É Mãe''.
Tanto a série como as crônicas se resumem, segundo Verissimo, aos assuntos do cotidiano, como a família, o trabalho, os amigos. E, se surgiram há pouco tempo, em 1996, as comédias acompanharam a rápida evolução dos costumes, mantendo-se sempre atuais.
Enquanto finaliza dois novos livros (um sobre seu time do coração, o Internacional, e outro sobre o polegar, para a coleção da Objetiva sobre os dedos da mão), ele se prepara para participar da segunda Festa Literária Internacional de Paraty, que começa no dia 7. No ano passado, Verissimo estava na cidade, mas teve de viajar apressadamente por causa de um problema de família. Agora, mesmo conhecido por sua timidez, ele está ansioso para conviver com outros escritores, como conta na seguinte entrevista.

Você disse uma vez que todo autor tem vontade de rever sua obra. Isso o influenciou de alguma forma ao selecionar as histórias de ''O Melhor das Comédias da Vida Privada''?
A Objetiva está relançando os livros antes publicados pela L&PM e são eles, mais especificamente a Isa Pessoa, que fazem a seleção e revisão das crônicas. Eu faço uma revisão final, claro, resistindo à tentação de reescrever tudo, mas a escolha é da editora.

Em que ponto é possível comparar suas comédias da vida privada com a série ''A Vida como Ela É...'', de Nelson Rodrigues?
Não sei. Em muitos casos são flagrantes do cotidiano e muitas, talvez a maioria, têm a ver com relação a homem-mulher, infidelidades, calhordices recíprocas, às vezes até felicidade. Mas acho que o estilo não tem nada a ver. O Nelson Rodrigues é incomparável.

Como você analisaria a evolução das comédias da vida privada ao longo dos anos 1990?
As comédias evoluíram na medida em que os hábitos evoluíram, alguns tabus de comportamento mudaram, coisas antes inimagináveis se tornaram corriqueiras e vice-versa.

O que era um bom material de inspiração em 1996 e ainda continua sendo?
A inspiração é sempre gente e a gente continua mais ou menos igual, mesmo mudando o comportamento e as relações.

A série adaptada para a televisão manteve o mesmo espírito que a do texto escrito?
Acho que não se deve fazer essa comparação. ''Espírito'' é uma coisa meio difícil de definir. Era outra linguagem, etc. Mas era o trabalho de gente de muito talento, como o Guel Arraes e o Jorge Furtado, e dos melhores comediantes da Globo, e gostei muito do resultado.

Em sua opinião, a crônica é um gênero nobre ou plebeu?
A questão é se é um gênero nobre que não se importa em parecer plebeu ou plebeu com pretensão a nobre. Só o que posso dizer em nosso favor é que alguns dos melhores escritores brasileiros, como o Rubem Braga, Paulo Mendes Campos (que também era poeta) e Antonio Maria, fizeram quase que exclusivamente crônica.

Por que fez tão poucas narrativas longas?
Meus três romances foram encomendados. Faltaram encomendas, além de tempo e talento.

Os diálogos são um diferencial em seus textos. Como desenvolve esse talento sendo, ao mesmo tempo, um escritor retraído?
Sou um introvertido, mas meus 67 anos não foram só de introversão. Tive muitas experiências, andei por aí, fora da casca, e ouvi e vi muito os outros vivendo.

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