O escritor gaúcho Erico Verissimo (1905-1975) gostava de dizer que jamais tivera outra atividade na vida, pois era um homem da pena. Produziu uma obra vasta, diversificada e que não perdeu a atualidade como comprova agora o relançamento de seus títulos, sob a chancela da Companhia das Letras. Os dois primeiros volumes de ''O Continente'' estão chegando às livrarias, iniciando a trilogia ''O Tempo e o Vento'', a mais famosa saga da literatura brasileira são 150 anos da história do Rio Grande do Sul e do Brasil, que o escritor compôs em três partes: além de ''O Continente'', figuram os dois volumes de ''O Retrato'' (previstos para novembro) e os três de ''O Arquipélago'' (lançamento de dezembro).
''É sem dúvida a maior obra dele e, mais espantoso, é talvez o único exemplo na literatura mundial de um texto que se dobra sobre si mesmo, se olha e se desmistifica enquanto está sendo feito'', comenta o também escritor Luis Fernando Verissimo, filho de Erico. A saga da família gaúcha começou a ser escrita em 1949, quando foi publicado ''O Continente''. Na época, Erico já rascunhava uma história grandiosa do Rio Grande do Sul.
Dois anos depois, ele lançou ''O Retrato''. E só terminou a trilogia entre 1961 e 62, com ''O Arquipélago'', em que não apenas encerra a sucessão familiar dos Terra Cambará como refaz todo o quadro histórico e social do Rio Grande (e também do Brasil) de 1745 a 1945.
E, ao mergulhar no passado, Erico buscou as raízes do presente. ''Seja na Porto Alegre onde se sucedem, de romance para romance, grupos de personagens com suas dúvidas, afirmações, sofrimentos, ganhos e perdas, seja na Santa Fé ficcional da trilogia ''O Tempo e o Vento'', o escritor conseguiu fabricar uma visão articulada das passagens da vida brasileira de uma sociedade agrária e tradicional para uma sociedade que se vê face a face com as descobertas e as contradições da modernidade'', afirma Flávio Aguiar, professor de literatura brasileira da USP e responsável pela supervisão editorial do relançamento da obra pela Companhia das Letras.
Daí o frescor que a obra ainda apresenta, segundo Luis Fernando Verissimo. Erico, para ele, foi um dos primeiros no Brasil a escrever com uma informalidade própria da literatura urbana, preferindo o despojamento anglo-saxão. Mas, como todo criador de mundos, ele vivia a angústia provocada pelo ato de escrever.
Além das obras, será publicada a correspondência do autor com outros escritores como Lygia Fagundes Telles. As cartas e alguns originais pertencem ao Acervo Literário de Erico Verissimo, do programa de pós-graduação em Letras da PUC gaúcha, responsável pela preparação do texto publicado agora pela Companhia das Letras. As novas edições vão trazer também uma árvore genealógica da família Terra Cambará, um mapa do Rio Grande, prefácios de pesquisadores e, como curiosidade, desenhos do próprio Erico.

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