O Rio de Janeiro sem casaca, desalinhado e maltrapilho - diferente do moço bonito e de chapéu de bamba do imaginário popular - é um abjeto sentado à mesa do príncipe dos poetas brasileiros.
Sem lisonjas, mas agudo como convém à ironia, ele não escondeu a contrariedade ao ser recebido por um Rio tão desleixado, depois de se render à ''mademoiselle'' Paris, uma cidade com perfume de mulher, onde morou como correspondente de um jornal carioca.
Satírico, Olavo Bilac resolveu alfinetar esse abandono, criando uma obra que ainda vive nos becos, assediada sempre pelo preconceito, que cobra dessa produção a condição de renegada pelos pesquisadores.
Incompreendida, essa parte da obra de Bilac, correspondendo às suas crônicas e poemas satíricos, não passou impune a Alvaro Santos Simões Junior, autor do livro ''A sátira do parnaso - Estudo da poesia satírica de Olavo Bilac publicada em períodos de 1894 a 1904'' (Editora Unesp, 124 páginas), que arrancou dela a alma de um príncipe indignado.
Professor de Literatura Brasileira na Unesp, campus de Assis, Alvaro em seu livro de estréia repara as injustiças à produção do poeta carioca, prisioneira do preconceito disfarçado de polêmica.
Para abrir essa prisão e libertar também um poeta cheio de humor, Alvaro entrou pela porta das paródias de Bilac publicadas nos periódicos ''Gazeta de Notícias'', ''A Notícia'' e nas revistas ilustradas ''A Cigarra'' e ''A Bruxa'', consideradas duas publicações sotisticadas para a época. Especialmente na ''Gazeta'', jornal que abrigou também Machado de Assis, Bilac foi um colaborador de muitos anos. É na ''Gazeta'' que o poeta escreveu as sessões humorísticas ''Filhote'' e ''Engrossa'', parodiando o próprio jornal.
''Vários poemas satírios são epigramas, comentários maldosos, alguns mais longos sobre as condições urbanas do Rio, como a falta de saneamento. Através dessa produção, descobrimos um Bilac interessado nas causas públicas, diferente do poeta alienado parnasiano. O escritor mostra o seu lado engajado'', comenta Alvaro.
Ora ouvir Bilac dizer no poema ''Ode-Tromba'' que ''Louvado seja o grande Zeus no Olimpo!/Mataste gente? pouco importa! - quem/Morre afogado, ao menos morre limpo,/ - O que já é um bem!/'' é ver o poder do príncipe em transformar uma tragédia em situação cômica.
No livro, Alvaro ao analisar a ''Ode-Tromba'' afirma que Fantasio, pseudônimo de Bilac, afrontou até o risco de parecer insensível aos flagelados de uma tromba d'água que desabou sobre o Rio ao criticar o abandono da cidade não só pela falta de saneamento, mas às endemias como a tuberculose e febre amarela e epidemias de cólera e tifo.
''O conhecimento dessa produção é restrito. Não existia um estudo sistematizado como o que fiz. Talvez porque exista um preconceito contra a sátira, considerada um gênero menor. Outro motivo pode ser porque Bilac nos poemas curtos e epigramas criticava algumas personalidades da época'', destaca Alvaro.
O bombardeio do poeta caiu sobre personalidades como os presidentes Prudente de Morais e Manuel Ferraz de Campos Sales, alimentando também uma implicância contra delegados de polícia.
Adornando as suas críticas com um esplendor fantasioso, Bilac tomava emprestado o poder dos sonetos em versos alexandrinos com o padrão estético parnasiano. ''Mas adotava uma monorrima que, interrompendo a cadência solene dos alexandrinos, era um embaraço para a leitura'', comenta Alvaro.
Resultado de uma tese de mestrado, o livro encaminhou o professor de Literatura a uma pesquisa nos microfilmes dos periódicos antigos na Biblioteca Nacional, na Fundação Casa de Rui Barbosa, no Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, onde encontrou, escondida, a sátira do parnaso.


Reprodução das três primeiras estrofes do poema ‘‘Ode-Tromba’’, de Olavo Bilac

Ode-Tromba

I
  Celebro, – ó tromba d’água! ó portadora
Da ira celestial! –
Celebro a grande fúria rugidora
Com que alagaste o leito da Central!
Para cantar-te a musa desentranho
Do olvido...ó grande, ó temerosa tromba!
ó nunca visto banho!
ó barrela de arromba!
– Louvado seja o grande Zeus no Olimpo!
Mataste gente? pouco importa! - quem
Morre afogado, ao menos morre limpo,
– O que já é um bem!
II
  (ó Sapucaias! que de vós seria,
Se tivésseis apenas, indigentes,
Para tratar da vossa porcaria,
Médicos e intendentes?!
Que seria, cidades brasileiras,
De vós, nesta aflição,
Carregadas de febres e lazeiras,
Roídas de infecção,
– Se cada uma de vós que se engafece,
Possuindo Intendência,
Ao lado da Intendência não tivesse
O auxílio da Divina Providência!)
III
  Cada cidade pelos cantos sujos
Tem esterco aos montões;
Sobem pelas paredes caramujos;
Em largos batalhões,
Cruzam sapos as ruas;
Mau calçamento; encanamentos rotos;
As praças são comuas;
Os becos são esgotos;
E, por essa imundície, informe e vasta,
– Magra, triste, infeliz,
Uma população banza se arrasta,
Com a mão no nariz...
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Serviço:
- Livro ''A sátira do parnaso - Estudo da poesia satírica de Olavo Bilac em periódicos de 1894 a 1904'', de Alvaro Santos Simões Junior, Editora Unesp, 124 páginas. Preço: R$ 25,00.

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