LITERATURA - O brasileiro que ninguém esquece
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sábado, 16 de abril de 2005
Ana Paula Nascimento<br> Reportagem Local 
É difícil imaginar quem nunca sonhou em passar um dia no ''Sítio do Pica Pau Amarelo'' e se aventurar com Emília, Visconde de Sabugosa, Narizinho e Pedrinho, além de conhecer a Dona Benta e a Tia Nastácia, com todos os seus quitutes deliciosos. Nesse mundo da fantasia, não havia limite e o conhecimento era sempre uma grande aventura. Fruto da imaginação do escritor Monteiro Lobato (1882-1948), que nasceu no dia 18 de abril, esses seis personagens formam o núcleo principal das suas histórias infanto-juvenis. Não há muitas informações sobre os pais dos netos da Dona Benta. Isso não era muito importante. O principal era defender a liberdade do pensamento livre de qualquer restrição que, às vezes, os pais por excesso de cuidados colocam, e em um ambiente onde predomina o afeto. Quer uma avó mais querida do que Dona Benta?
Encantado pelo mundo de Lobato, que conheceu por volta dos 12 anos, o engenheiro agrônomo Léo Pires Ferreira, 63 anos, há mais de 20 anos se dedica a dar palestras gratuitas sobre o escritor em escolas de cidade e região. Trabalhando há mais de 30 anos como pesquisador de soja da Embrapa, Ferreira não perde o entusiasmo de falar sobre escritor.
Dono de um grande acervo sobre Lobato, que inclui livros, monografias, biografias, artigos e revistas, além da coleção completa dos seus 23 livros infanto-juvenis e 19 de literatura adulta, Ferreira e sua mulher Marinez, que o acompanha nas palestras e também é uma apaixonada por literatura, sempre estão garimpando nos sebos materiais raros sobre o escritor. Uma das preciosidades que possuem é uma gravação da entrevista que Lobato deu à Rádio Record dois dias antes de morrer, no dia 4 de julho, em decorrência de problemas do coração.
Entre os materiais mais curiosos, estão as cópias da certidão de batismo, casamento e falecimento do escritor, que chegou a ser chamado de ''anti-modernista'', devido à crítica que fez ao estilo de pintura de Anita Malfatti, em 1917, no texto ''Paranóia ou Mistificação''. ''Isso foi uma injustiça. Lobato estava além dos modernistas. Sempre teve uma visão à frente do seu tempo. Era modernissíssimo'', defendeu Ferreira, que cita como exemplo da sua ousadia modernista screver ''Idéias de Jeca Tatu'', em 1919, focando os problemas da realidade brasileira..
A cara sisuda, marcada pelas sobrancelhas grossas sinal que as crianças costumavam desenhar em cartas que dirigiam à ele e que nem precisavam de endereço para os carteiros acertarem o destino , escondia um grande talento para dialogar com o imaginário infantil. Emília, a boneca de pano, dizia que era seu alter ego. ''Eu não escrevo o que quero. Quando estou na máquina de escrever, ela pega no meu dedo e escreve o que quer'', relatou o escritor. Com enchimento de macela uma florzinha amarela bem cheirosa , a boneca de pano foi feita pela Tia Nastácia e passou a tagarelar quando tomou as pílulas falantes do Dr. Caramujo, que conheceu no fundo do rio, no ''Reino das Águas Claras''. Espevitada, Emília questiona o tempo todo e sempre colocou a verdade em xeque.
''A literatura-infantil, de modo geral, é maniqueísta, está sempre entre o bem e o mal, o certo e o errado, o vilão e o herói. Lobato fugiu disso. Em todos os seus livros infanto-juvenis o único vilão era a ignorância, que sempre era combatida com o conhecimento, esse era o único 'herói' dele. Em suas histórias abarcava aritmética, matemática, ciências, mitologia grega e defendia o ato de conhecer com liberdade'', destaca Ferreira.
Órfão aos 16 anos de pai e mãe, o então menino Monteiro Lobato foi morar com o seu avô Visconde de Tremembé, na Fazenda São José, de Buquira, no interior de São Paulo. A família era abastada e chegou a hospedar D. Pedro II, quando em viagem pela região. ''Lobato era muito irônico e desse episódio registrou que o imperador era um 'homem grandalhão, tinha barba vasta, mas voz fina...''', lembra o estudioso.
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