LITERATURA - Na rota do grande prêmio
PUBLICAÇÃO
sábado, 05 de junho de 2004
Ana Clara Garmendia<br> Equipe da Folha 
Curitiba O jornalista e escritor José Castello acaba de receber a notícia de que foi indicado pela terceira vez ao Jabuti, o maior prêmio da literatura brasileira. Nascido em 1951 no Rio de Janeiro, Castello vive em Curitiba há 10 anos. Mais ou menos na mesma época em que saiu do jornalismo para se tornar escritor e criar ''O Poeta da Paixão, uma Biografia de Vinícius de Moraes'', obra premiada com o Jabuti.
Logo que chegou aqui começou a escrever para o Estadão (apelido dado pelos jornalistas ao jornal O Estado de São Paulo) as crônicas que deram origem ao livro ''Melhores Crônicas'', indicado como finalista para o Jabuti deste ano. Castello concorre na seção de contos e crônicas ao lado de João Gilberto Noll, Sergio Sant'anna, Marçal Aquino, Manoel de Barros, entre outros. O resultado será divulgado pela Câmara Brasileira do Livro (CBL), no próximo dia 5 de julho.
''O legal é que a crônica é um gênero totalmente desprestigiado pela literatura brasileira. A literatura tende a achar que a crônica é uma coisa de jornal. Então a vê como uma coisa menor. Existe um desprezo e um preconceito. Por outro lado, como não se dá grande importância literária ela termina sendo um gênero sem gênero. Ou seja, cada um escreve crônica no seu estilo. É um espaço de entrecruzamento de gêneros. Escreve-se sobre qualquer coisa. É um espaço de liberdade.''
Quando Castello começou a ''sacar'' essa característica da crônica passou a brincar com os leitores. ''Toda terça-feira saia minha fotografia lá. E as pessoas achavam que era verdade tudo que eu escrevia por ser em jornal e o jornal ser o local da verdade. Eu comecei a escrever crônicas na primeira pessoa, só que cada semana eu imaginava, mas não comunicava ao leitor, que era uma pessoa diferente.''
Com essas participações de personas distintas Castello começou a instigar as pessoas. ''Tinha leitor que ficava louco comigo. Recebi cartas de gente me xingando. As pessoas me diziam: está rindo da minha cara? Onde você quer chegar com isso?'', conta. Aos poucos os leitores passaram a entender o jogo de Castello e até hoje ele recebe cartas de leitores que criaram personagens para lhe escrever.
''Quando eu comecei a escrever sempre fazia um número maior de linhas que tinha no jornal. Então começava a esculpi-las até chegar ao miolo da história. Isso é um exercício muito bom. E acho que as minhas crônicas também sempre tiveram um pé no fantástico, no surreal. Meus personagens são muito pequenos. Pessoas anônimas. Eu mesmo falo de mim da forma mais despretensiosa possível. Acho que isso criou um processo de identificação com meus personagens e comigo mesmo. Embora me estranhassem. Ainda encontro gente que me pergunta se era verdade ou não tal história. Isso eu nunca vou responder.''
''A crônica tem um pé na realidade e um pé fora dela.'' Com esse temperamento de jogar com as expectativas do leitor, o escritor vive hoje totalmente dedicado à literatura. Desde que largou a vida diária de jornalista ele já escreveu vários livros.
Começou com o ''O Poeta da Paixão, uma Biografia de Vinícius de Moraes'', ''Vinícius de Moraes, uma Geografia Poética'', ''O Homem Sem Alma'' sobre João Cabral de Melo Neto, ''Na Cobertura de Rubem Braga'', ''Inventário das Sombras'', uma coletânea de retratos de escritores entre eles Nelson Rodrigues, Clarice Lispector, Ana Cristina César, Saramago, Dalton Trevisan, etc, ''Pelé, os dez corações do rei'' e ''Fantasma.''
O romance ''Fantasma'' tem cenário curitibano e conta a trajetória de um homem que está no Jardim Botânico fazendo cooper e recebe um recado estranho de uma mulher: ''Paulo Leminski não morreu''. Dessa notícia o homem começa uma busca pelo poeta morto por vários pontos da cidade. ''Fantasma'', foi finalista no Jabuti, recebeu menção especial no prêmio Casa de las Américas em Cuba, mas estranhamente não agradou o público curitibano.
''A recepção mais indiferente foi aqui em Curitiba. Acho que eu mostro uma cidade que os curitibanos não gostam. Uma Curitiba meio provinciana e, não é antiga, até porque o livro se passa nos dias de hoje, mas de pessoas desconfiadas. Chove o tempo todo. Faz frio o tempo todo. Está longe da imagem turística. Não se falou sobre o livro. Dei entrevistas enormes para o Pará, Rio Grande do Norte. E aqui, fora o Wilson Martins, que é um dos maiores críticos literários do País, que escreveu e falou mal e não estou dizendo isso contra, ele já elogiou vários trabalhos meus ninguém falou nada.''
E mais essa indicação ao Jabuti, o deixa envaidecido? Qual o significado real de receber prêmios? ''É o prêmio mais importante do País. Claro que é legal ficar de finalista. Agora, há dois prazeres anteriores à premiação. Um é o prazer das pessoas que chegam até você. Eu fui fazer uma conferência em Belém do Pará e tinha um teatro lotado com 150 pessoas. Depois disso tinha gente com o livro todo rabiscado, recortado. Tinham lido e relido. Isso é o que dá mais prazer. Ver como o livro passa a fazer parte da vida das pessoas. E mais legal ainda é o próprio prazer de escrever. Eu não compartilho com uma certa visão dos escritores que dizem que escrever é um sofrimento. Para mim, antes de tudo, é um prazer.''


