LITERATURA - Mito novamente revisitado
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 22 de julho de 2005
João Batista Natali<br> Folhapress 
As biografias de Ernesto Che Guevara (1928-1967) tendem a uma sistemática polarização. Destacam seu dogmatismo político ou então seu romantismo revolucionário, dependendo da predisposição do biógrafo com relação à sua missão vitoriosa na guerrilha cubana ou aos seus fracassos no Congo e na Bolívia.
O historiador americano Paul J. Dosal integra o grupo de simpatizantes de Che. Mas não cai na tentação de canonizá-lo como a encarnação de um sonho, hoje anacrônico, que há décadas misturava libertação nacional com revoluções derivadas do leninismo.
Dosal se propõe a analisar Guevara como um estrategista militar. Foi um campo de conhecimentos no qual se destacou esse médico nascido na Argentina, com certeza o mais hábil entre os 82 homens desembarcados no litoral cubano pelo iate Granma, em dezembro de 1956, e que dariam origem ao movimento armado que dois anos depois deporia Fulgencio Batista.
Che Guevara, diz Dosal, não foi propriamente um autodidata. Teve como professor Alberto Bayo, veterano da Guerra Civil Espanhola e instrutor dos guerrilheiros cubanos exilados no México. Mas sua capacidade de fazer da guerrilha uma ''linguagem'' refinada pra derrotar um Exército convencional mais numeroso e mais forte levam o biógrafo a comparar o Che a Lawrence da Arábia, Augusto Cesar Sandino, Mao Tsé-tung ou mesmo Nguyen Giap, que derrotou os EUA no Vietnã.
Com tamanho fechamento do enfoque, desaparecem do livro desse professor da Universidade do Sul da Flórida outras facetas fundamentais que compõem o personagem. Quase nada é escrito sobre sua infância e juventude em Rosário e Buenos Aires. Não há nada sobre sua gestão da reforma agrária cubana, como presidente do Banco Nacional de Cuba ou como ministro da Indústria.
Há míseras quatro linhas, na página 215, sobre o período em que Che se tornou o comandante do forte de La CabaÀa, em Havana, onde, segundo o livro, ''processou e executou centenas de partidários de Batista''.
Não foi bem assim. Foram entre no mínimo 158 e no máximo 500 os fuzilados no ''paredón''. O poeta Armando Valladares relata que Che Guevara orientava pessoalmente certos interrogatórios sob tortura. E que entre os fuzilados estavam adversários de Batista que militavam em movimentos cristãos.
Dosal pode ter omitido esses tópicos delicados por insistir na proeminência de seu biografado como teórico mundial da guerrilha. Mesmo no caso, há em seu livro um nítido desequilíbrio. Há cinco capítulos sobre a campanha cubana, obviamente a vitoriosa e bem documentada.
Mas apenas um para o malogro no Congo onde não conseguiu se impor como um ''Tarzan branco num país de negros'', segundo crítica a ele feita pelo então presidente egípcio, Gamal Abdel Nasser e um outro capítulo para o desfecho patético do herói na Bolívia, onde as tropas do presidente René Barrientos o mataram em 8 de outubro de 1967.
Para essas duas campanhas, Dosal recorre a informações inéditas de documentos da inteligência americana recentemente desclassificados. É um dos pontos fortes de seu trabalho.
Serviço
- Livro ''Comandante Che'', de Paul J. Dosal, tradução de Marcos Maffei. Editora Globo, 416 páginas, R$ 45,00


