LITERATURA - Mestres saúdam a estréia de Igor Galante
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sexta-feira, 29 de junho de 2007
Antonio Gonçalves Filho<br> Agência Estado 
São Paulo - Os escritores Moacyr Scliar e Menalton Braff recomendam prestar atenção na carreira do paulista Igor Galante. Seu primeiro livro, ''Violências'' (volume da coleção ''Rocinante'', da Editora 7 Letras) justifica essa aposta no autor, nascido há 28 anos em Andradina e jornalista em São José do Rio Preto. Galante estréia com um pequeno livro de seis contos e 64 páginas, mas o primeiro deles alimenta a suspeita de que poderia ser o esboço de um romance, intenção confirmada por Galante.
A violência, em Galante, está além do documental e não reforça a mitologia de ser ligada às classes menos favorecidas. Pode ser física, explícita, como no último conto do livro, ou consequência da incomunicabilidade, como no conto ''O Reencontro''.
O primeiro conto do livro traz ecos formais e temáticos de Raduan Nassar, especialmente a questão da difícil relação interpessoal entre diferentes gerações. Qual a relação que você tem com sua literatura?
''Sempre me despertaram admiração autores que não precisaram mais do que dois livros para definir a importância de sua obra na história da literatura, como Raduan Nassar e Juan Rulfo, que eu também cito como referência. Conheci Nassar por meio daquele conto ''Aí pelas Três da Tarde'' e foi um choque, porque há ali um exercício fantástico de concisão, impacto e fúria, elementos que serviriam ao propósito, veja só, de meu último conto. Já ''O Velho e o Menino'', o primeiro da coletânea, pode ter sua atmosfera associada à de ''Lavoura Arcaica'', mas confesso que não me lembrei do romance na hora de escrever o conto. Minha formação literária foi construída até agora levando em conta um único e traiçoeiro critério: o prazer. Por enquanto, minhas referências não fogem muito do óbvio: Carlos Drummond de Andrade, Ivan Ângelo, García Márquez, Mário Puzo; na poesia, Manoel de Barros, Carpinejar.''
Menalton Braff , a respeito do conto Duas Amigas, destaca o recurso da interlocução em que você envolve o leitor na história ao usar a expressão ''e ai de você se as julgar''. Essa advertência mais parece uma acusação, tornando o leitor cúmplice da violência. Você acredita que somos incapazes de nos julgar como brasileiros, criados sem respeitar os limites entre público e privado?
''Uma das coisas que mais me encantam desde a adolescência, em Machado de Assis, é quando ele fala diretamente comigo, por meio da interlocução. Defendo a liberdade de expressão e, no caso de 'Duas Amigas', era importante mostrar que o narrador estava do lado das personagens, de sua conduta sexual, despertando no leitor o mesmo sentimento de afeição, fundamental para o confronto dramático que se desenvolve no clímax. A linha que define o público do privado hoje é tão tênue que é até difícil definir o que é público e o que é privado, porque somos um povo historicamente habituado a incorporar a ideologia do outro, a aceitar com resignação o que o mundo produz de ruim.''
Contos, de modo geral, marcam a estréia de autores que, de uma maneira ou de outra, aspiram a escrever romances. O caso de O Velho e o Menino é exemplar. Ele parece nascido para ter maior fôlego. Por que você escolheu a síntese?
''Você matou a charada. 'O Velho e o Menino', e também 'O Reencontro', nasceram como esboço de romance. O início de 'O Reencontro' até presta uma homenagem à construção das primeiras linhas de 'Cem Anos de Solidão'. No caso de 'O Velho e o Menino', trabalho com uma narrativa que é propositadamente lenta em seu início, como contraponto ao último conto. Foi um desafio, ao mesmo tempo um exercício, reverter uma estrutura já cimentada para uma história de grande fôlego, como você diz, para a síntese que pede o conto. Não me vejo pronto para o romance. Ainda é o momento de conhecer, experimentar, aprender com a linguagem, testar narrativas, no tiro curto do conto, essa forma literária que eu não pretendo abandonar tão cedo.''


