LITERATURA - 'Literatura me fez suportar o mundo'
PUBLICAÇÃO
sábado, 22 de setembro de 2007
Célia Polesel<br> Reportagem Local 
''O humano não tem força para abreviar nada e, quando insiste, colhe o fruto verde, antes de amadurar. Tudo tem o seu tempo certo. Não vê a semente? A gente semeia e é preciso esquecer a vida guardada debaixo da terra, até que um dia, no momento exato, independentemente do querer de quem espalhou a semente, ela arrebenta a terra desabrochando o viver. Nada melhor que o fruto maduro, colhido e comido no tempo exato, certo.'' Para a escritora Conceição Evaristo, autora dessas frases, o tempo certo levou 56 anos, idade em que ela conseguiu publicar pela primeira vez suas poesias, em uma antologia, em 1990. Os romances Ponciá Vicêncio e Becos da Memória levaram mais tempo, foram publicados em 2003 e 2006.
A escritora, nascida em Minas Gerais, tem uma escrita forte, capaz de, através de uma linguagem bastante poética, escrever as cenas mais duras do cotidiano. Seu romance ''Ponciá Vicêncio'', que está na segunda edição, será lançado em Nova York em novembro e foi indicado como leitura obrigatória para o vestibular de 2008 da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Segundo Conceição este foi um grande presente. ''Me deu muita satisfação porque estou ao lado de Machado de Assis, Guimarães Rosa, Darci Ribeiro e Heloísa Buarque de Holanda. Só escritores canônicos; a Heloísa, além do mais, é uma crítica literária, e aparece 'Ponciá Vicêncio', de Conceição Evaristo, furando o cerco.''
Conceição teve que batalhar muito para ''furar o cerco'', o primeiro trabalho foi publicado em 1990, nos Cadernos Negros, uma coletânea de escritores afrodescendentes, que se cotizam para bancar o material. A publicação completa 30 anos este ano - em um ano se publica poesia e outro ano, prosa. Ela conta que alguns desses textos foram publicados em alemão e acabaram indo parar em Viena, Áustria, o que lhe rendeu um convite, em 1996, para falar da escrita afro-brasileira. Conceição foi também para os Estados Unidos e África falar sobre o assunto.
Mesmo sendo reconhecida internacionalmente foi difícil publicar individualmente. ''A primeira edição de 'Ponciá' tive que bancar do meu bolso e o interessante é que foi por uma editora de uma mulher negra. Em novembro ele será lançado nos Estados Unidos e acredito que muitos críticos brasileiros não sabem que uma escritora brasileira negra está sendo publicada lá e por uma editora americana de proprietários brancos.''
Segundo ela, desde 1960, não há um romance de uma escritora brasileira negra publicado nos EUA. Ela ressalta que só foi ser reconhecida no Brasil depois de ir a Viena e ter alguns textos publicados nos EUA. ''Mesmo assim é um círculo restrito, são alguns pesquisadores, acadêmicos, que estão nesse momento trabalhando com a literatura escrita por afrodescendentes.''
Conceição conta que não nasceu rodeada de livros, mas de palavras. ''Meu primeiro contato com a literatura parte de toda a influência das culturas africanas, dessa oralidade que elas trazem. Em casa tinha-se o hábito de contar histórias, qualquer acontecimento cotidiano virava uma história, é uma das características dos mineiros.''
A adolescência da escritora foi marcada pela leitura, para ela foi o que a ajudou a suportar o mundo, sua defesa. ''A minha adolescência foi muito pobre, solitária, marcada pelas questões raciais, pelas escolas que frequentei e a literatura me ajudou realmente a suportar o mundo. Meu diálogo com o mundo foi a literatura.''
Desde a infância escreve, mas nunca pensou que se tornaria escritora. ''Ao terminar o primário, no final de 1950, ganhei um prêmio por uma redação que tinha como título 'Por que me orgulho de ser brasileiro?'. Na adolescência escrevia diário, jograis, mas não tinha a percepção do que essa escrita viria a se tornar mais tarde. Tanto que não tenho nada desta época; rasgava, jogava tudo fora.''
A autora explica que seu sonho sempre foi o de sair do lugar-comum da condição de vida que levava, porque sabia que tinha direito a isso, só não imaginava que a escrita iria proporcionar a saída do lugar social em que se coloca a mulher negra. ''A sociedade brasileira está acostumada a atribuir determinadas qualidades à mulher negra: cozinhar e lavar bem, dançar e cantar bem, escrever bem é inesperado. Esse livro é para mostrar que a mulher negra, canta bem, dança bem, cozinha bem, cuida bem da casa alheia, cuida bem dos filhos e escreve bem, também.''
Além de ''Ponciá'', Conceição tem também o romance ''Becos da Memória'', que ficou quase 20 anos na gaveta depois de ser rejeitado por duas editoras.
O livro foi escrito para ser publicado no centenário da abolição, em 1988, mas só chegou ao público em 2006. Nele a autora narra a história de vários personagens tendo como pano de fundo a favela - para Conceição uma encarnação contemporânea da antiga senzala. Nos planos para o futuro está a publicação de duas antologias, uma de poemas, outra de contos, e já tem uma editora interessada nos contos.
EU-MULHER
Uma gota de leite
me escorre entre os seios.
Uma mancha de sangue
me enfeita entre as pernas.
Meia palavra mordida
me foge da boca.
Eu-mulher em rios vermelhos
inauguro a vida.
Em baixa voz
violento os tímpanos do mundo.
Antevejo.
Antecipo.
Antes-vivo.
Antes - agora - o que há de vir.
Eu fêmea-matriz.
Eu força-motriz.
Eu-mulher
moto-contínuo
do mundo.
(Poema de Conceição Evaristo)


