LITERATURA - Itália presta homenagem ao amor secreto de Neruda
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 17 de julho de 2002
Kelly Velásquez<br> France Presse 
Roma - A Itália, que há 50 anos recebeu o famoso poeta chileno Pablo Neruda para um exílio de amor e política na ilha de Capri, presta homenagem a essa aventura reeditando o livro que inspirou essa temporada coberta de paixão.
''Todo livro tem sua história e o deste é uma história de infidelidade, amor, amizade e cumplicidade'', afirmou o embaixador do Chile na Itália, José GoÀi, ''nerudiano'' convicto, que pesquisou a memorável passagem do poeta por Capri há exatamente meio século.
Os seis meses que o poeta chileno passou em 1952 na ilha adorada pelos imperadores romanos, em companhia de seu novo amor, a cantora chilena Matilde Urrutia, que via às escondidas de sua esposa, a pintora argentina Delia Carril, foram plasmados em um livro, ''Los versos del capitán'', cuja história é emblemática.
''Trata-se de um livro de poemas intensos, que descrevem o amor que cresce em meio a dificuldades da época, como a guerra fria, a perseguição que o governo chileno de então submetia os militantes comunistas, a ameaça de expulsão da Itália, revogada por pressão dos amigos italianos de Neruda'', conta GoÀi.
Graças aos amigos de Neruda, desde o pintor Renato Guttuso, passando pelo cineasta Luchino Visconti, escritores e jornalistas como Antonio Trombadori, Elsa Morante e líderes comunistas como Pietro Ingrao e o próprio Palmiro Togliatti, secretário do poderoso Partido Comunista Italiano, o poeta consegue se refugiar em Capri, onde aflora com força seu amor clandestino.
''Tira-me o pão, se quiseres, tira-me o ar, mas não me tira teu sorriso'', escreveu Neruda ao seu amor furtivo, em um livro editado a 8 de julho há 50 anos em Nápoles, de forma anônima, para não ofender sua esposa cantando publicamente sua paixão.
Como uma homenagem a esse livro, cujos únicos 44 exemplares foram entregues a cada um dos protetores italianos do poeta, as autoridades de Nápoles e de Capri, junto com a embaixada chilena, reeditaram mil exemplares, impressos na mesma gráfica, com o mesmo papel e os mesmos tipos de chumbo, para recordar uma história não só de amor - Matilde Urrutia se converterá em seguida em sua segunda esposa - mas também de política.
''Quando contatei os amigos do poeta que ainda vivem, a maioria de intelectuais comunistas, todos se emocionaram, porque muitos deles mantiveram relações com Neruda até sua morte, em 1973'', diz GoÀi, que inicia com essa publicação a série de homenagens que o Chile presta ao centenário do nascimento de Neruda, a 12 de julho de 1904.


