A escritora chilena Isabel Allende anda em plena cruzada contra Bush, que considera ''arrogante, fascista e inepto''. Por telefone, dos Estados Unidos, ela adianta que tem uma espada apontada contra o presidente americano: a de Zorro, o mascarado negro. Herói das sessões da tarde no antigo seriado da televisão e agora do cinema, Don Diego de la Vega, o Zorro, é seu mais novo personagem. O livro sobre o justiceiro será lançado no próximo ano.
Isabel Allende, que recentemente teve seu livro de memórias lançado no Brasil (''Meu País Inventado'', Bertrand Brasil, 238 págs., R$ 33)
inspirou-se em vários personagens para escrever sobre Zorro. A mais lida autora latino-americana (38 milhões de livros vendidos e traduzidos em 27 idiomas) define o herói como uma mistura de Peter Pan, Robin Hood e Che Guevara. Esse cruzamento híbrido revela a personalidade de seu Zorro, que será retratado da infância aos 20 anos. ''Ele é jovial, galanteador, atlético, aventureiro e tem um senso de justiça muito próximo ao de Che Guevara'', sintetiza a escritora. É também um tanto irônico e troca de personalidade como quem troca de roupa, segundo sua criadora, que atribui essa ambivalência às raízes espanholas e indígenas do herói. Zorro nasceu na Califórnia e vive entre dois mundos - o mexicano, pobre e religioso, e o americano, rico e laico.
Os netos tiveram uma influência decisiva na hora de Isabel aceitar a proposta da família Hertz, dona dos direitos autorais sobre o personagem Zorro, que sugeriu a nova versão da vida do herói . Entusiasmada com o sucesso da série ''Harry Potter'', da escritora escocesa J. K. Rowling, ela vê com bons olhos a sedução do leitor jovem para o mundo da literatura. ''Porém, não posso dizer que o livro seja infanto-juvenil, pois não me sinto confortável escrevendo para adolescentes'', observa. Para o público jovem ela produziu ''El Bosque de los Pigmeos'', que sai agora nos Estados Unidos e Espanha. O livro faz parte de uma trilogia iniciada com ''O Reino do Dragão de Ouro'' e ''A Cidade das Feras''.
''El Bosque de los Pigmeos'' é quase uma alegoria política, que, ela assume, foi inspirada no recente conflito entre Estados Unidos e Oriente Médio. Passa-se em algum lugar da África equatorial e fala de uma aldeia escravizada por um tirano. ''Escrevi num momento difícil, esse da guerra entre Estados Unidos e Iraque, na esperança que o conflito fosse resolvido, mas, sinceramente, não vejo saída com Bush.''
Contudo, o presidente Bush não deve ser confundido com o povo americano, ressalta. Há um interesse cada vez maior dos Estados Unidos pela produção cultural dos países latinos, acrescenta a autora. ''Muitas editoras criaram departamentos para autores de língua espanhola, embora esse recente fenômeno também possa ser analisado como uma estratégia comercial protecionista contra a entrada de livros estrangeiros.'' Para impedir a invasão dos editores espanhóis, editoras americanas, de olho no mercado potencial dos latinos, tomam a dianteira e tentam conquistar os milhões de leitores estrangeiros residentes nos EUA.
A escritora não conhece os novos autores latinos. Diz que continua lendo seus mestres, o colombiano García Marquez e o conterrâneo Pablo Neruda. Sobre o poeta chileno, responsável por sua iniciação literária, Isabel Allende ajudou a realizar um documentário de 60 minutos parcialmente financiado pela Universidade de Stanford para marcar o centenário de nascimento do escritor, dia 12 de julho. Neruda foi decisivo na vida da colega, desestimulando-a da profissão de jornalista.
Em um de seus livros, ''Paula'', ela conta como foi a abordagem - pouco diplomática - de Neruda: ''Você deve ser a pior jornalista deste país, minha filha. É incapaz de ser objetiva, coloca-se no centro de tudo e suspeito que minta um bocado. Por que não se dedica a escrever novelas? Na literatura, esses defeitos são virtudes''. Isabel Allende seguiu o conselho. Agradece até hoje.

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