Alguém naturalmente bissexto não tem pressa, mas pode ser que ande com a lírica, capaz de num só passo ou verso ajudá-lo a fazer a sua mea-culpa ao afirmar que a poesia é os seus sete pecados.

A poetisa e jornalista londrinense, Mirian Paglia Costa está comemorando 30 anos à frente da Editora de Cultura, de São Paulo, que tem a proposta de se manter pequena, publicando especialmente reedições de grande longevidade, a exemplo da coletânea de contos e crônicas ''Histórias das Quebradas do Mundaréu'', de Plínio Marcos. Após três décadas da primeira edição, a obra mantém a apresentação de João Apolinário, um dos melhores críticos teatrais brasileiros.

Não obedecendo a Cronos, o deus do tempo, Mirian paralelo à atividade editorial vai lentantamente escrevendo o seu pecado: a poesia. A autora publicou o primeiro livro em 1981, ''Colar de Maravilhas'', obra de estréia que recebeu prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA), na categoria Revelação. A autora também foi finalista do Prêmio Jabuti - uma das maiores premiações literárias brasileiras - com o livro ''Notícias do Lugar Comum'', título que somente foi publicada em 1997.

Aos 60 anos de idade, o terceiro livro ainda dorme na gaveta, devendo ser publicado em 2008. A poesia em Mirian é autobiográfica e ficcional, sendo que os textos do novo livro são ambientados na paixão. Alguns estão envoltos num lençol de erotismo tão sutil quanto são os sentimentos amorosos, que enroscam as suas pernas na arte da sedução.

''Já na terceira idade, eu estou obedecendo as lições de Rilke nas 'Cartas a um Jovem Poeta' não me atrevendo com o amor, que o amor é complicado'', afirma Mirian ao citar Rainer Maria Rilke (1875-1926), que ao responder ao jovem Franz Xaver Kappus, indeciso entre a carreira militar ou a literatura, não ofereceu uma receita, revelando a essência do exercício literário.

Um marcador de páginas está no meio de sua poesia: a inspiradora Londrina. Filha de pioneiros, ela deixou a cidade natal em 1974, aos 34 anos, com a idéia de fazer doutorado em São Paulo. Mirian nunca abandonou as ruas da saudade londrinense, que sempre visita. Em Londrina, Mirian trabalhou nas editorias de Política e Internacional - hoje Mundo - da Folha de Londrina, mas a poetisa conquistou a jornalista, que preferiu cometer os seus sete pecados na lírica.

A juventude da cidade natal sempre contribui com uma visão nova e que ainda fascina a autora. ''Escrevo muito a partir das memórias da minha infância. No livro 'Notícias do Lugar Comum', eu coloca a minha trajetória entre Londrina e São Paulo. É uma reflexão, um registro das experiências desse tempo. Começo com um poema para São Paulo e termina com outro a Londrina. São poesias que se respondem'', comenta Mirian.

Mulher que ainda não sabe se é mais apaixonada por Londrina ou São Paulo, a poesia a ajuda a tentar descobrir qual das duas cidades merece mais o seu amor. ''Londrina é um lugar mítico na minha vida. Não é apenas a cidade física. A cada seis meses, eu volto para visitar alguns parentes e encontro uma cidade diferente. A certa altura não conheço mais ninguém. São novas emoções. São Paulo é a cidade da experiência, do repenique da realidade'', afirma a autora.

Mirian produziu alguns haikais, gênero que considera modismo no Brasil. A sua obra se aproxima mais dos modernistas e Manuel Bandeira (1886-1968), que em todo a sua obra no movimento procurou a liberdade tanto de forma quanto conteúdo. ''Paulo Leminski fez uma descoberta com os haikais ao traduzir Bashô, o que fazia sentido na trajetória do escritor curitibano. Os seguidores de Leminski exageraram. Não é o tipo de poesia e reflexão nossas. Sou uma poetisa que não tenho geração. Escrevo desde jovem, mas estreei tardiamente. Não dá para me citar dentro de uma geração de autores. Sou uma modernista atrasada. O meu caminho é até mais próximo do simbolismo'', avalia Mirian a própria obra.

Como editora de livros, há 30 anos, Mirian espera poder fazer alguma diferença no mercado editorial, optando por títulos e assuntos que não estão embaixo dos olhos. ''Conseguimos isso ao lançarmos 'Oficina do Empreendedor', de Fernando Dolabela. O autor está saindo da nossa editora para outros projetos, inclusive internacional. Quando colocamos no mercado não se falava sobre o assunto. Foi o meu autor que lançou esse conceito. A gente faz um pouco a função de São Paulo na música: a gente lança e o Rio de Janeiro repercute'', afirma, ressaltando que a originalidade é a pauta que guia as suas escolhas por novas publicações, mas que o principal termômetro de avaliação é sempre a sua leitura.

''Sobre jornalismo cultural fiquei feliz com o aparecimento de revistas, como a 'Palavra', do Ziraldo. O que defendo como jornalista, na área cultural, é uma cobertura do Brasil. A revista do Ziraldo fazia exatamente isso. Na minha opinião, o jornalismo permanece em débito com a produção brasileira. Temos mais produções do que o jornalismo cobre'', conclui Mirian, que tem sempre o olhar fixo nas esquinas de Londrina, cometendo sempre mais um pecado em forma de poesia ao ser tentada pela inspiração.


SUAS POESIAS
Londrina de Longe
Quero o olho inaugural
a coleção de espantos
o rememorar das coisas
o primeiro som do mundo
seu cheio ainda não classificado
quero rio turvo e terra roxa
quebradas de Londrina, Paraná
quero parentes, amigos, desafetos
amor sem fim, ódio mitigado
zero de conduta, comportamento ilibado
quero porque quero arquivar tudo

Esquina do Bosque
Olhar o céu
Olhar a vida.
Na fímbria da noite
não na próxima esquina.

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