LITERATURA - Folhas atravéss do tempo
PUBLICAÇÃO
sábado, 02 de julho de 2005
Ana Paula Nascimento<BR>Reportagem Local 
Walt Whitman, um cosmos, um grosso. Assim, há 150 anos, o poeta Walt Whitman (1819-1892) se apresentava na página 28, no meio da abertura do poema Canção de Mim Mesmo, que integrava os 12 poemas da primeira edição de Folhas de Relva, que no dia 4 de julho de 1855 chegava aos leitores de Nova York. O desprezo foi visível ao jornalista tarimbado que naquele momento se dedicava à carpintaria e aos poemas. Depois do fracasso nas vendas, até com queima pública dos seus livros, não demorou muito para que recebesse de um dos filósofos mais importantes da época, Ralph Waldo Emerson, o reconhecimento de uma obra que foi a divisora de águas da poesia moderna, influenciando dezenas de poetas e escritores. Amanhã, em diversos países, a data será celebrada com palestras e conferências sobre o poeta que foi chamado por Paulo Leminski de poeta tardio da Revolução Americana.
Seus poemas eram longos, sem métrica e rima, e nunca ninguém usou com tanta propriedade e freqüência o verso livre. Patriota ao extremo, que aos 36 anos, amargava a decepção pelos rumos que a política norte-americana estava tomando que mais tarde iriam ocasionar a Guerra Civil, onde trabalhou como enfermeiro voluntário , Whitman não se esquivou de colocar na sua obra de estréia temas polêmicos como o auto-erotismo, masturbação e cenas de violência, que nas seis edições seguintes seriam suprimidos. Ao todo, 397 poemas compõem as sete edições de Folhas de Relva, que tem na sua primeira edição, conforme a crítica especializada, a matriz de todo o seu processo criativo. Do tempo de jornalista, ficou o hábito de carregar cadernetas onde anotava as suas impressões, que recentemente foram encontradas.
Em Folhas de Relva, Whitman explicita o libertarismo individualista, o igualitarismo antifeudal, a vitalidade inaugural do capitalismo na América e o otimismo ativista de um povo. Ele chegou a dizer que os Estados Unidos é o maior poema, frase que nos tempos atuais correria o risco de causar mal-estar e nos remeter ao imperialismo norte-americano que hoje patrocina a guerra no Iraque e não aceita limites impostos pela ONU.
Para Whitman, a poesia não era algo restrito a poucos iniciados mas aberta e democrática, imersa nas questões de seu tempo. Ele não apresenta seu poema como o produto de um gênio. De cara, colocava-se no mesmo nível do outro, como um convite a um rito de passagem cujo objetivo é a auto-transformação. Em Folhas de Relva encara e se dirige diretamente ao leitor já nas primeiras linhas: Eu celebro a mim mesmo, / E o que eu assumo você assume, / Pois cada átomo em mim também pertence a você. Assumir novas visões, novas identidades, novas responsabilidades eram o grito de guerra do pioneiro modernista.
No Brasil, há algumas traduções de fragmentos dos seus poemas, mas, para agosto, o poeta e tradutor londrinense Rodrigo Garcia Lopes prepara o lançamento de uma edição inédita da primeira versão de Folhas de Relva, pela Editora Iluminuras. A edição, que será bilíngue, é o resultado de um trabalho de um ano e meio de tradução e traz um pós-fácio de 70 páginas com explicações sobre a poética de Whitman e informações biográficas. A obra de Whitman é complexa, com influências da Bíblia, do jornalismo, da fotografia e do misticismo, da literatura e da filosofia oriental, comenta Lopes.


