O tapete vermelho que conduz estrelas ao Kodak Theatre para a cerimônia do Oscar pode significar o caminho da glória ou do fracasso. ''Afinal, ninguém pode lembrar no dia seguinte quem ganhou o Oscar de melhor atriz coadjuvante. Mas todos se lembram de Gwyneth Paltrow em seu vestido rosa-chiclete de bailarina assinado por Ralph Lauren'', comenta Julian Tennant, estilista que, como todos em Hollywood, anda na corda bamba na semana que antecede à cerimônia, tentando convencer estrelas a desfilar no tapete com seus modelitos.
Tennant não existe. É um dos tresloucados personagens de ''Celebutantes'', romance que trata justamente dos bastidores da mais concorrida semana do ano em Hollywood, sete dias que funcionam como uma contagem regressiva até o momento em que os envelopes sejam abertos e os novos reis e rainhas do cinema sejam conhecidos. Com lançamento simultâneo em 12 países, ''Celebutantes'' seria mais um romance engraçadinho não fosse a trajetória de suas duas autoras: Amanda Goldberg, que é filha do legendário produtor Leonard Goldberg, e Ruthanna Hopper, que tem um pai famoso, o ator Dennis Hopper.
Familiarizadas com o cinema desde o jardim da infância, as duas amigas colecionaram histórias suficientes para rechear ''Celebutantes'', mistura de ficção e realidade. O ponto de partida é Lola Santini, filha de um diretor de Hollywood que, uma semana antes da entrega do Oscar (no qual seu pai concorre pela segunda vez), aceita ajudar um amigo, Tennant, a arrebanhar vips para exibirem seus vestidos na cerimônia.
Acostumada a visitar festas nas quais Francis Ford Coppola pode ser visto
conversando na sala, Angelina Jolie preparando um drinque na cozinha e Britney Spears vomitando no banheiro, Lola parece a pessoa certa para a missão. O único tropeço está na facilidade com que se mete em confusões e, pior, por sofrer do mal que ela mesma reconhece como ''atorholic'', ou seja, ser viciada em namorar atores narcisistas para tentar superar o relacionamento com um pai incapaz de amar qualquer outra pessoa que não seja ele próprio.
Rastejar é o mínimo que se pode fazer para convencer um ator em ascensão ou a ''nova futura Julia Roberts'' a escolher o traje que vai vestir na entrega do Oscar. É o que Lola Santisi logo descobre quando inicia sua batalha em defesa dos vestidos e dos ternos desenhados por Julian Tennant, aliás, seu ''melhor amigo gay'', como define esse e outros amigos e inimigos .
Como é narrado por Lola, ''Celebutantes'' oferece ao leitor uma infindável série de comentários venenosos capaz de envergonhar o mais ácido dos cronistas mundanos. Ela nasceu justamente num dia de entrega do Oscar. ''Minha mãe estava no meio de uma mordida da ainda nada famosa pizza de salmão defumado, do chef Wolfgang Puck, no meio do Oscar de melhor ator de Dustin Hoffman, quando sua bolsa estourou'', conta.
Logo, Lola descobriu a dificuldade de se relacionar com o pai-diretor, de quem só conseguia notícias frescas se assistisse diariamente ao ''Entertainment Tonight''. Na batalha de egos, aliás, ela rapidamente descobriu pessoas pós-graduadas em falta de caráter, com mestrado em manipulação e doutorado em punhalada pelas costas.
Lola conta sua dura trajetória usando como referências o que sabe de cada um do mundo cinematográfico. São os momentos mais maldosos do romance e, claro, mais saborosos. Afinal, é fácil imaginar a dificuldade enfrentada pelo irmão, Christopher, quando ele dá a impressão de que foi arrancado de um filme de zumbi do George Romero. Isso quer dizer que ele já está bem encaminhado para o fundo do poço, mais conhecido por Britney Spears.
As autoras Amanda e Ruthanna não se preocupam em camuflar nomes. Quando descobre que Scarlett Johansson desiste de usar um vestido de Julian, Lola desabafa: ''Detestar esse vestido seria como detestar 'Cidadão Kane'.'' A dupla de escritoras não nega fogo também em mostrar a sujeira debaixo do tapete, revelando alguns macetes da sétima arte. É o caso de uma atriz que desiste de participar do filme dirigido pelo pai de Lola, pois teve de se internar em uma clínica por ''exaustão''. ''Todos sabem o que quer dizer 'exaustão' em Hollywood: a inevitável revelação para a revista 'Star', feita por um 'amigo querido', de que você foi vista cheirando como uma porca nos bastidores de festa beneficente.''
O consumo de maconha e o ator que dorme com o diretor em busca de um papel de destaque na próxima produção não passam, no livro, de café pequeno. Os artistas são hoje muito mais paparicados que no passado, recebendo absurda quantidade de presentes caros. E são tão capazes de abrir mão dos mimos quanto Mel Gibson de se converter ao judaísmo. ''Essas celebridades não sabem como se dão bem agora.'' Ela relembra um caso: quando foi indicada para o prêmio de melhor atriz por ''Noivo Neurótico, Noiva Nervosa'', em 1977, Diane Keaton só ganhou a estatueta e mais nada. Pior: dirigiu pessoalmente seu Volkswagen, usando o terno emprestado do irmão.
O importante é saber enfrentar a cerimônia do Oscar e as festas que se seguem. E descobrir, no dia seguinte, que a carreira ainda está sob controle; a vida amorosa, sob controle; a cura do câncer, sob controle; e, como ninguém é de ferro, também as novas botas Chanel de couro crocodilo, sob controle.

Glossário

O mundo dos artistas do cinema é recheado de expressões e siglas que só os frequentadores entendem. Eis algumas, pinçadas em ''Celebutantes'':
- Roman Polanski: viver exilado.
- John Belushi: overdose.
- Paris Hilton: o fundo do fundo do poço.
- Virginia Woolf: tipo de morte para quando nada mais surte efeito. Basta encher o bolso com pedras e se atirar num rio.
- Embaixador de Hollywood: alguém cujo trabalho é convencer celebridades a usar determinada roupa na entrega do Oscar.
- Atorholic: estar viciada em atores narcisistas.
- Febre da Celebridade: perda da capacidade de fazer as próprias compras no supermercado, ir à lavanderia, cozinhar, ou trocar uma lâmpada sem a ajuda de alguém. (U.B.)




SERVIÇO
- Livro ''Celebutantes'',
Autoras - Amanda Goldberg e Ruthanna Hopper
Editora - Rocco - tradução Pinheiro Lemos
Páginas - 376
Quanto - R$ 40

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