LITERATURA - Flip deverá ser ampliada em 2007
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segunda-feira, 11 de julho de 2005
Antonio Gonçalves Filhoe Ubiratan Brasil<br> Agência Estado 
A Festa Literária Internacional de Parati (Flip) é um sucesso tão grande que seus organizadores já projetam uma ampliação para a edição de 2007. Embora não seja oficial, comentava-se, no encerramento do festival literário, anteontem à noite, que ela poderá durar o dobro da atual, ou seja, até dez dias no novo formato, fazendo crescer a lista de autores daqui a dois anos. Nem mesmo sua idealizadora, a inglesa Liz Calder, habituada ao êxito, esperava tanto. A editora é a responsável pelo advento do fenômeno Harry Potter. Apostou na autora da série, J.K. Rowling, que lança mundialmente no sábado o sexto livro.
No ano passado, Liz Calder dizia que Paraty não comportava uma festa maior. De fato, as ruas da pequena cidade litorânea do Rio foram tomadas por turistas, provocando o colapso na estrutura hoteleira e espera interminável nos restaurantes. A Flip mudou a face da cidade turística, totalmente envolvida na festa, promovendo eventos paralelos para moradores da cidade, crianças e adultos. ''É por isso que pretendemos ocupar dois finais de semana com a Flip, comprovando a eficiência do turismo cultural, mais que o simples turismo de praia'', comenta Mauro Munhoz, diretor de arquitetura do evento, responsável pela logística das tendas e um dos principais incentivadores do crescimento da festa segundo ele, a Flip de 2007 poderia começar em uma quinta-feira e se encerrar no domingo da outra semana.
Este ano, os organizadores instalaram um telão na praça da matriz, que transmitiu toda a programação da Tenda dos Autores, além do programa de abertura, uma homenagem a Clarice Lispector (1920-1977) encerrada com um show de Paulinho da Viola. Na terça edição, a Flip atraiu 12 mil turistas para a cidade fluminense, ou seja, o equivalente a um terço da sua população fixa. Não sobrou um leito nas 290 pousadas do centro. Quem insistiu, mesmo sabendo que teria de ficar hospedado em localidades mais afastadas, como Trindade ou Jabaquara, não se arrependeu. A festa foi ainda melhor que as dos anos anteriores, impressionando pela sua organização até os autores habituados a participar de festivais literários internacionais como os de Edimburgo, na Escócia, e Hay-on-Wye, no País de Gales.
Os patrocinadores investiram pesado na terceira edição, que teve entre suas estrelas o escritor anglo-indiano Salman Rushdie, o espanhol Enrique Vila-Matas e o brasileiro Ariano Suassuna, entre outros 35 autores que participam de 20 mesas de debates. O investimento total foi de R$ 3,8 milhões, dois terços captados por meio de patrocínio e doações e um terço proveniente de permutas com empresas. Mais de 600 pessoas, entre equipe e fornecedores, participaram da organização do evento.
Na coletiva de imprensa para um balanço da festa, a idealizadora Liz Calder e a organizadora Ruth Lanna não revelaram nomes dos escritores cotados para a próxima edição da Flip, mas é provável que Paraty se volte para o Oriente, desta vez, buscando nomes como o do chinês Gao Xingjian, autor do romance Montanha da Alma e Prêmio Nobel de 2001, hoje residente na França ele foi, aliás, convidado para a edição deste ano.
A festa poderá voltar-se também para a intersecção da literatura com o cinema, como Ruth pretendia fazer neste ano, quando convidou o cineasta italiano Bernardo Bertolucci, autor de um livro de poemas, a vir a Paraty.
Respondendo a críticas feitas na edição passada, Ruth Lanna deixou claro que a Flip não cede ao poder lobista de editoras para incluir seus autores, o que é corriqueiro em bienais internacionais, com listas de artistas controladas por marchands e galeristas.
A terceira edição da Flip foi marcada por discussões políticas e pela defesa do diálogo transcultural. O debate mais caloroso foi registrado na discussão sobre poesia e política, mesa que reuniu o colunista Arnaldo Jabor, o rapper MV Bill e o ex-secretário de segurança do Rio, Luiz Eduardo Soares, os dois últimos autores do livro Cabeça de Porco, que relata o envolvimento de 16 jovens (15 deles mortos) com o tráfico de drogas. MV Bill considera que a sociedade cobra dos pobres uma ''resposta'' para a questão, quando ela tem de ser dada por um pacto social interclassista. Jabor acha impossível mobilizar a classe política ou chegar a um acordo com o atual governo por causa do seu envolvimento na rede de corrupção.
Pelo menos na Flip, as discussões são democráticas e ninguém apareceu de olho roxo no dia seguinte. Nela, até sonhos impossíveis são realizados. O escritor baiano João Filho, a celebridade instantânea da terceira edição, chegou desempregado a Paraty e saiu com a esperança de ser contratado por um dos maiores editores do País, que ficou impressionado com o assédio da imprensa ao autor de Encarniçado. Filho em tudo lembra seu conterrâneo Glauber Rocha (especialmente no talento). Sorte do Brasil.


