A marcha da história tem pressa. Às vezes, alguns fatos chamam mais atenção, ofuscando personagens que também carregam o estandarte do protagonismo. Os 400 anos de nascimento de Padre Antônio Vieira, o ''Imperador da Língua Portuguesa'', é uma dessas efemeridades do ponto de vista histórico, no cortejo de comemorações de 2008, que leva à frente os 200 anos da chegada da Família Real ao Brasil.
O mercado editorial, ainda que timidamente, marca as homenagens ao 4º centenário de um dos nomes mais importantes da literatura luso-brasileira com o lançamento em oito volumes, reorganizados, de ''Os Sermões'' pelas Edições Loyola.
A editora também publicará o livro''Antiguidades Modernas: História e Política em Antônio Vieira'', de Marcos Antônio Lopes. Ele é doutor em História pela USP, professor do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Estadual de Londrina (UEL) e pesquisador do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).
A obra de Vieira é composta por cerca de mil escritos em diversos gêneros. Os mais famosos são os sermões, que ultrapassam 200, resistindo ao tempo pela capacidade de lançar argumentos. ''A pronúncia dos sermões desenvolvidos do alto do púlpito foi mais importante do que o texto na época de Vieira. A palavra é que transfere o prestígio'', comenta o professor da UEL.
Em seu ensaio, o pesquisador vai ao universo das imagens régias onde vive o pensamento de Vieira sobre os povos não cristãos. Com esses pensamentos nas mãos, Lopes traz um Vieira de uma riqueza de prosa, carregada de fortes e complexas idéias, mas de uma fraqueza de ornamentos contrária à característica da literatura de sua época. ''O seu discurso 'engenhoso' é um artefato criado para veicular idéias, e convencer pelo argumento, antes que deslumbrar ou atarentar pelo aparato de palavras bem arranjadas'', avalia Lopes.
Padre Vieira nasceu em Lisboa no dia 6 de fevereiro de 1608, morrendo na Bahia em meados de 1697. O pesquisador ressalta que numa existência quase centenária, o polêmico personagem revoltou os dois lados do Oceano Atlântico.
''Aliás, a sua vida adulta inicia-se por uma manobra radical: a saída de casa para ingressar na Companhia de Jesus, sem o consentimento dos pais. Com efeito, Vieira torna-se-ia uma fonte incômoda de ruído, tanto na corte de Dom João IV, quanto entre os colonos do Norte do Brasil. Expondo e defendendo resolutamente as suas idéias e projetos, arranjou inimigos às pencas'', diz o pesquisador
Em sua história de vida, de acordo com Lopes, é possível encontrar instrutivas lições de como fazer adversários e fomentar a ira dos desafetos, lembrando que o ''Hércules do Verbo'' também foi um dos inventores da tolerância religiosa nos Tempos Modernos, antes de autores como Pierre Bayle, Leibniz e Locke refletirem sobre o assunto.

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