LITERATURA - Estrela em palavras
PUBLICAÇÃO
domingo, 28 de novembro de 2004
Katia Michelle Pires<br> Equipe da Folha 
Curitiba Ainda criança, a menina Estrela Leminski já tinha uma bagagem cultural de fazer inveja. Filha do casal de poetas Paulo Leminski (1944-1989) e Alice Ruiz, Estrela convivia com ícones da geração de escritores que se destacaram nos anos 80. Influenciada por esse cenário, não foi surpresa quando, aos seis anos de idade, ela fez o seu primeiro haicai, numa mesa de um restaurante paulista (''A casa, a lua e o sol/Nem sempre só''). A partir daí, uma espécie de conspiração fez com que Estrela não parasse mais de escrever.
Até os 10 anos, ela participou de diversos concursos nacionais de hai-kais, conquistando sempre os primeiros lugares. Na pré-adolescência, no entanto, sua produção parou. ''Eu travei, até escrevia, mas não queria mostrar pra ninguém'', conta. Agora, aos 23 anos, Estrela resgata toda a produção da infância e adolescência, antes confinada aos olhos da mãe, no livro ''Cupido: Cuspido e Escarrado'', da recém-lançada editora gaúcha Ame o poema, e assume definitivamente seu lado poeta.
O livro faz parte da coleção de estréia da editora, que lança simultaneamente obras de outros 12 poetas. Estrela e Alice Ruiz (com o livro Yuuka) são as únicas curitibanas da empreitada. A primeira obra publicada de Estrela reúne a produção da escritora desde o primeiro haicai até os textos produzidos aos 19 anos. ''Eu decidi escrever porque não ia ter mais jeito. Eu não conseguia parar'', confessa. Para Estrela, a responsabilidade pela lacuna de sua produção literária pode ser atribuída a uma auto-crítica exacerbada.
''Quando eu era criança, todo mundo gostava do que eu escrevia. Mas na adolescência eu tinha medo de não contar mais com esse olhar fraternal. Além do mais, sempre houve uma cobrança para que eu escrevesse, por causa dos meus pais, e isso me travava'', revela. Um dia, porém, Estrela decidiu imprimir parte da sua produção e mostrar para a mãe e para os amigos mais críticos. O caderno artesanal com os poemas impressos ficou esquecido na estante. Até que Ricardo Silvestrin, que ao lado de Alexandre Brito colocou em prática a editora de poemas, encontrou, por acaso, os escritos na casa de Alice Ruiz e levou para outros editores analisarem antes de decidir pela publicação.
''O mais interessante é que minha mãe não fez nenhum movimento para que isso acontecesse. Foi natural''. O livro é divido em três capítulos: ''cupido'', que reúne os poemas de amor; ''cuspido'' , que aborda temas gerais e ''escarrado'', que traz os poemas mais ''escrachados'', segundo definição da própria autora. Os únicos poemas datadas são os produzidos durante a infância. ''Cupido: Cuspido e Escarrado'' traz texto na apresentação de Arnaldo Antunes.
Estrela não gosta de encarar o livro como um obra de estréia. ''Eu vejo como um encerramento de um ciclo. São os poemas que escrevi até os 19 anos, depois disso me envolvi com outras coisas'', diz. ''Coisas'' que devem render, no futuro, outros três livros. Um deles de contos, outro infantil, fruto da sua experiência como professora de música para crianças e outro teórico, cujo tema (bandas independentes) está sendo apresentado no último ano do curso de música que faz na Faculdade de Artes do Paraná.
No livro de contos, Estrela pretende resgatar uma produção da adolescência. Na sua fase literária mais recolhida, ela foi convidada pela Folha de Londrina a assinar crônicas semanais no suplemento Folha Viva. ''Vou retomar esses textos para incluir no meu próximo projeto'', revela. As novas edições não tem data para serem lançadas. Já o seu primeiro livro já foi lançado em Porto Alegre e Curitiba, na semana passada, e tem lançamento na capital paulista marcado para dezembro.
Além de Estrela e Alice, assinam livros que completam a coleção da Ame o poema o piauiense Fred Maia e os gaúchos, Ricardo Silvestrin, Frank Jorge (músico integrante da banda extinta Graforréia Xilarmônica) Celso Gutfreind, Silvestrin Roberto, Marcelo Pires, João Ângelo Salvadori, Paulo Seben, Alexandre Brito, Ronald Augusto e Ricardo Portugal.
Meus poemas histéricos
não aceitam o não
Eu obsessiva
finjo que não quero
Eu tento ser sincero
mas eles continuam
fazendo mistério
Tentamos de tudo
Terapia em grupo
Concretismo
Monastério
Eu não aguento
mas nem com reza braba
meus poemas me levam a sério
(Poema de Estrela Leminski publicado no livro Cupido: Cuspido e Escarrado)


