LITERATURA - Eco refaz o imaginário da Itália fascista
PUBLICAÇÃO
sábado, 28 de maio de 2005
Luiz Zanin Oricchio<br> Agência Estado 
Como todo romance de Umberto Eco, também ''A Misteriosa Chama da Rainha Loana'' (Record, 456 págs., R$ 49,90, tradução de Eliana Aguiar) é recheado de referências cultas e citações. Mas o próprio título do livro se refere a uma história em quadrinhos de Cino e Franco, popular nos anos 1940, quando o protagonista de Eco, um certo Giambattista Bodoni, vulgo Yambo, era menino. Assim, neste que é seu quinto romance - depois de ''O Nome da Rosa, O Pêndulo de Foulcault, A Ilha do Dia Anterior e Baudolino'' -, Eco se rende às referências da cultura pop dos seus primeiros anos.
O livro - que se autodenomina ''um romance ilustrado'' - é povoado por imagens e personagens como Mandrake e Fantasma, Mickey Mouse, Pateta e Clarabela, além de canções populares, selos e capas de livros de aventuras, como os de Emilio Salgari, um dos favoritos do autor.
Mas que autor? Yambo ou o próprio Eco? Claro, o livro é uma ficção mas, por meio do personagem inventado, mergulha no imaginário infantil e juvenil do próprio Eco. Essa volta ao passado, essa ''rememoração de influências'' se dá a partir de um engenhoso recurso ficcional. Bodoni, comerciante de livros antigos, sofre um acidente e sua memória entra em parafuso. Torna-se amnésico, mas o esquecimento é seletivo.
Ele conserva parte da memória que os neurologistas chamam de ''semântica''. Por exemplo, conhece de cor os versos da ''Divina Comédia'' e o romance ''I Promessi Sposi''. Mas a sua memória afetiva teve os circuitos queimados. Não se lembra do próprio nome, não reconhece a mulher com quem está casado há 30 anos e não tem idéia se teve ou não um caso com a jovem secretária que o auxilia na loja de livros.
O personagem, que tem cerca de 60 anos, tenta recordar mas não consegue grande coisa. A filha Nicoletta (de quem ele não se lembra) leva Yambo então à casa do seu avô, no meio do campo, em Solara. Esse avô era um colecionador de coisas. Livros, discos velhos, revistas, papéis, cartas, selos, objetos variados, tudo continua lá e o acervo servirá como estímulo mnemônico. Mesmo porque foi nessa casa que ele passou sua infância, por volta dos anos 40 (o presente, no romance, é em 1991). Foi lá que ele se ''formou'' como pessoa, durante os anos finais do fascismo, que coincidiam com a sua meninice. O livro é isso: o contato de uma mente avariada com tudo aquilo que fez a sua cabeça durante seu período de formação.
A idade de Yambo coincide com a de Eco, nascido em Alexandria em 1932. Personagem e autor cresceram sob Mussolini. Eram crianças durante a guerra, quando a censura filtrava as informações para os cidadãos. Assim, é muito engraçado ver como determinadas histórias vindas dos Estados Unidos eram devidamente ''italianizadas'' durante o período do Duce. A habilidade do romance está em supor uma consciência devidamente ''purificada'' pela amnésia, uma tábula rasa tentando recuperar o que pensara naqueles dias. E, por contraste, expondo ao ridículo toda uma era de nacionalismo extremado e contra-informação.
Em geral, temos a ilusão de dispormos de um fluxo contínuo da memória, que seria como um depósito de recordações, que vão se acumulando sem se alterar, formando o nosso acervo particular de lembranças, mais ou menos intocadas. Hoje sabemos que a memória é dinâmica. Exclui elementos indesejados e cria associações entre outros. O que fica vai sendo reinterpretado ao longo dos anos, de modo que não existe coisa mais difícil do que saber aquilo que pensamos em determinada época recuada em nossas vidas.
É por isso que Yambo lê com espanto uma dissertação escolar de sua autoria, que professa estreito conformismo com o pensamento fascista, padrão da época. E, mais espantado ainda, lê outra, datada de poucos meses depois, que expressa pensamento oposto, bem mais crítico e lúcido. Através desses sinais recolhidos na velha casa do avô, o livreiro sexagenário vai se reconstruindo como uma espécie de personagem de si mesmo.
Vale lembrar o que esse procedimento de Eco deve a outros autores, de um lado Proust e de outro Borges. As ''misteriosas chamas'' de que fala o título do livro e da historieta de Cino e Franco são as iluminações que aparecem quando Yambo consegue reviver o espírito do tempo e abrir clarões em seu esquecimento. São as suas ''madeleines'', alusão ao biscoitinho que o narrador de ''Em Busca do Tempo Perdido'' mergulha no chá de tília e cujo sabor abre a Proust o caminho para o edifício da memória.
De Jorge Luis Borges, Eco tira a utopia da lembrança absoluta, expressa no conto ''Funes, o Memorioso'', história do homem que não podia esquecer nada. E, portanto, não conseguia formar conceitos, que se constróem justamente a partir do ''esquecimento'' das particularidades em benefício de algo mais geral.
O livro fala, portanto, da memória e do esquecimento. Fala também da Itália fascista e do imaginário que a conformava. Fala da importância da ''cultura popular'' na formação do homem do século 20, mesmo que ele seja um medievalista e romancista ilustre como é o caso de Umberto Eco.


