Quando fecha os olhos para imaginar seu novo personagem, Isabel Allende vê um charmoso Antonio Banderas de máscara, capa e espada. Com essa imagem como inspiração, parece até que foi fácil construir um passado para o herói Zorro, uma espécie de biografia não-autorizada do mito, que está no livro ‘‘Zorro - Começa a Lenda’’(Bertrand Brasil, R$ 52, 420 págs.). ‘‘Meu trabalho consistiu em imaginar a família, as origens e o temperamento de um rapaz californiano no século 19, que chega a se converter no Zorro’’, explica a autora chilena que vive há anos nos Estados Unidos,
  Isabel escreveu o livro por encomenda, feita pelos donos dos direitos autorais sobre o personagem mais fetichista de todos os tempos. Disposta a se divertir com o tarefa, imaginou a infância e primeira juventude de um Diego de la Vega nascido em 1790, na Alta Califórnia, filho de um capitão espanhol e uma índia rebelde. Esse detalhe, acredita, explica muito bem a tendência do herói a desembainhar a espada para defender os fracos e oprimidos. ‘‘Por que um jovem fidalgo espanhol no século 19 iria arriscar sua vida em defesa dos índios?’’, questiona a escritora. ‘‘Era necessário explicar isso. E me ocorreu que Diego deveria ter uma conexão muito forte com os índios que habitavam essa parte da Califórnia. Gostei da idéia de que fosse mestiço.’’
  Autora conhecida por best sellers densos, como ‘‘A Casa dos Espíritos‘‘e ‘‘De Amor e de Sombras’’, Isabel Allende faz sua primeira experiência no gênero ‘‘capa e espada’’, que já foi tantas vezes considerado menor. E é notável como consegue montar um romance tão singular em sua trajetória ao mesmo tempo em que imprime alguns dos mais marcantes aspectos de seu estilo literário, para desapontar os que acreditam que um livro escrito por encomenda acaba recebendo um tratamento mais frio de seu autor.
Na introdução do livro está escrito que ‘‘chegou a hora de desmascarar o Zorro’’. Por que agora?
  A narradora conta a história quando Zorro já é um homem maduro. Ela acha que ele deve deixar o personagem, e permitir que outros, mais jovens, tomem seu posto. Decidiu escrever porque sempre esteve apaixonada por ele, admira-o, mas também zomba dele.
E por que a senhora resolveu escrever sobre ele?
  Zorro é um personagem da minha infância, mítico e encantador, mas não combina com o tipo de história que eu normalmente escrevo. Se os donos dos direitos autorais não tivessem vindo à minha casa me sugerir que escrevesse sobre ele, não sei se teria tido a idéia desse livro. Uma vez que aceitei o desafio, confesso que me diverti muito.
Como foi a composição do personagem?
  Imaginar o jovem Diego foi muito fácil. Primeiro, investiguei a época e os lugares onde seria ambientada a história. Isso já me deu muito material. O personagem Zorro já existia: valente, atrevido, aventureiro, vaidoso, brincalhão, teatral, extrovertido, luta por justiça, defende os índios. Meu trabalho consistiu em imaginar a família, as origens e o temperamento de um rapaz californiano no século 19, que chega a se converter no Zorro. O que teria acontecido na sua vida para que ele se convertesse num defensor da justiça? Por que ele cobre o rosto com uma máscara? Etc...
Como seria o Zorro de carne e osso para a senhora?
  Zorro para mim tem a cara do Antonio Banderas. É alegre, simpático, valente, ama a vida, a justiça e a aventura. Tem uma alma sempre juvenil, defende os fracos, é atlético e um grande espadachim.
O livro terá continuação? Será adaptado para o cinema?
  No momento, não tenho a intenção de escrever uma continuação. A Sony comprou os direitos do livro, e já está trabalhando num roteiro.
Zorro é conhecido por lutar por justiça. Nesse caso, que diferença há entre o Zorro de hoje e o de anos atrás?
  Zorro sempre luta por justiça. É uma mistura de Che Guevara e Robin Hood, com a atitude brincalhona de Peter Pan. Nesse sentido, é um herói atemporal, que pode existir em qualquer época.

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