Ao se matar, no dia 13 de maio de 1984, o médico e escritor mineiro Pedro Nava deixou alguns textos inéditos e o sétimo volume de suas memórias, ''Cera das Almas'', inacabado. Suas pouco mais de 30 páginas apareceram truncadas na polêmica biografia lançada há oito anos pela professora francesa Monique Le Moing, ''A Solidão Povoada'' (Editora Nova Fronteira). Agora, o texto surge na íntegra numa edição fac-similar da obra, que a Ateliê Editorial e a Editora Giordano colocam brevemente no mercado, ao lado de um outro volume com todas as entrevistas concedidas por Nava. A Ateliê e a Giordano, que relançaram no ano passado todos os seis volumes da obra do memorialista, seus cadernos de viagem e os livros de medicina, anunciam ainda mais um inédito, a biografia do médico Torres Homem, iniciada nos anos 40 e também inacabada, segundo o sobrinho de Nava, o médico Paulo Penido.
As 36 páginas iniciais de ''Cera das Almas'' não revelam muito sobre o suicídio de Pedro Nava, mas o tom rancoroso com que seu alter ego José Egon (cruzamento de ''ego'' com ''N'' de Nava) se refere a colegas médicos aponta numa direção bem diferente das páginas finais de ''O Círio Perfeito'', que termina com o mesmo Egon conduzindo um ex-colega de faculdade, o ''Comendador'', à beira do precipício moral. Nava, contrariando a tradicional família mineira, relata o assédio sexual do ''Comendador'' por um padre. Alguém, enfurecido com a revelação, teria enviado a Nava um bilhete ameaçador, datado de 30 de janeiro de 1984, três meses e meio antes de seu suicídio, em que prometia telefonar ao memorialista para um ajuste de contas. Como se sabe, Nava se matou logo após um telefonema - ''o mais obsceno'' que recebeu em vida, segundo contou à mulher Antonieta, antes de pegar um revólver e caminhar pela última vez na Rua da Glória, no Rio.
Segundo a biografia escrita pela professora francesa de literatura, Nava teria sido vítima de chantagem. O memorialista frequentaria o meio homossexual carioca e não teria suportado ver sua intimidade exposta publicamente. O sobrinho Paulo Penido duvida que o tio tivesse vida dupla. Não gostou da biografia, publicada pela Nova Fronteira, e transferiu os direitos da obra do tio para o amigo editor Cláudio Giordano, sócio na empreitada do editor Plínio Martins Filho, da Ateliê Editorial. Penido jura que não fez isso por moralismo. ''Essa questão de assédio sexual por padres já aparece até em filmes de Almodóvar e meu tio, como se sabe, nunca foi moralista.'' O médico herdeiro, assistente do tio por oito anos, viajava com ele para participar de congressos e jura nunca ter ouvido dele nenhuma referência ao assunto. ''Nunca rolou nenhum papo sobre homossexualismo.''
Esse tema também não ''rola'' numa nova biografia do escritor (Pedro Nava, ''O Risco da Memória'', de Eneida Maria de Souza, Funalfa Edições), lançada agora em maio pela professora de Teoria da Literatura na Universidade Federal de Minas Gerais. O suicídio de Nava é mencionado, mas a professora conclui ser ''inútil discutir sobre as causas do ato fatal''. Bem, não parece inútil ou impertinente a discussão se Proust teria escrito ''Em Busca do Tempo Perdido'' caso não fosse homossexual e, como tal, observasse com olhos de exilado a sociedade em que viveu. Como Nava foi tremendamente influenciado por ele, interessa, sim, saber as causas de seu suicídio. Isso não tira os méritos da biografia da professora mineira, ainda um tanto tímida para desvendar o Proust brasileiro.
Em outro recente livro lançado pela Ateliê Editorial em parceria com a editora da Universidade Estadual de Londrina, ''Pedro Nava e a Construção do Texto'', os professores Edina Panichi e Miguel L. Contani observam que Nava admitia haver muito de subjetivo em suas observações, transcendendo o limite de memórias para ''invadir a crônica de costumes''. Ao falar dos outros, Nava tentava entender a si mesmo. Driblava, enfim, a estratégia de construção da própria memória para criar arte. O livro revela como o esteticismo do inglês Oscar Wilde e de seus amigos pintores - a arte pela arte, sem preocupação política ou didática - influenciou o escritor mineiro (o Nava desenhista fez ilustrações tão estilizadas como as do inglês Audrey Beardsley).
Wilde e Beardsley, ambos homossexuais, gostavam de provocar a sociedade vitoriana com caricaturas de suas instituições. O livro da dupla de professores analisa particularmente o papel que a caricatura tem na imagem dos personagens construída por Nava. Quando tinha dificuldades para construir um relato, a recuperação memorialista vinha por meio da redução desses mesmos personagens a uma ou duas características capazes de identificá-los. Daí para uma ''visão carnavalesca do mundo'' era um passo. Essa visão, segundo os autores de Pedro Nava e a Construção do Texto, ''exprimem uma oposição a toda idéia de acabamento e perfeição, a toda pretensão de imutabilidade e eternidade, seriedade e rigidez''. Confere. Quem não consegue rir com Nava, na certa deve estar doente, principalmente se ler a tradução criativa da linguagem de seus pacientes (''sinto um rebolado no joelho'', ''me deu um ronco na cabeça...'').
Conversador e sarcástico, Pedro Nava incomodou muita gente da sociedade mineira com suas memórias. Colocaram até despachos na porta da casa do escritor com fotos suas misturadas a penas de urubu e terra de cemitério. Uma das figuras lembradas nessas memórias é o médico Caldas Brito, seu arquinimigo, retratado como o professor Sacanagildo de Lima Goiaba. É a ele e outros médicos responsáveis por sua saída da Policlínica Geral, em 1975, que Nava ''dedica'' o sétimo volume de suas memórias, ''Cera das Almas''.
''Cera das Almas'' é sua vingança contra o fatídico ano de 1975, em que ele, após deixar a Policlínica, deprimido com a aposentadoria, distribuiu a seis amigos íntimos uma carta em que anunciou o futuro suicídio, pedindo que seu corpo fosse embalsamado e o enterro, simples. ''Ele ficou decepcionado, pois achava que sua demissão da Policlínica teria uma repercussão enorme, mais ou menos como a renúncia de Jânio, e nada aconteceu'', conta o sobrinho Paulo Penido, revelando que os destinatários da carta suicida - o poeta Carlos Drummond de Andrade, entre eles - obrigaram o tio a procurar um psicoterapeuta.
Penido ainda tem em mãos textos inéditos do tio, mas não são registros de suas sessões de análise nem fazem parte de um diário íntimo, garante. São relatos de suas experiências pelo mundo, como ''Viagem ao Egito, Jordânia e Israel'', ou textos de medicina, como ''Território de Epidauro'', ambos publicados recentemente pela Ateliê Editorial. A biografia de Torres Homem - médico que foi um modelo para Nava com seus métodos particulares de cura - ainda está sendo revista pelo editor e não tem previsão de lançamento. São mais de 600 páginas de um manuscrito denso. ''O livro de entrevistas sai antes'', garante Giordano.
Tantas obras reeditadas atendem a uma demanda cada vez mais crescente de estudiosos, interessados na monumental obra memorialista do médico que o professor Antonio Candido colocou na companhia dos maiores nomes da literatura brasileira. Vinte anos após sua morte, o número de teses acadêmicas sobre Pedro Nava impressiona. A décima terceira vela do candelabro da Semana Santa, o ''círio perfeito'' do escritor mineiro, não se apagou. Ela ilumina o caminho de novas edições.

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