LITERATURA - Cássia Eller em fartas linhas
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 02 de agosto de 2005
Adriana Del Ré<br> Agência Estado 
No palco, a cantora Cássia Eller vivia a personagem. Fazia o estilo ousada, debochada, intransigente. Transformava-se. Fora dali, as coisas eram diferentes. Ela sofria de timidez crônica, que, em sua vida, influía contraditoriamente. Em alguns momentos, chegou a emperrar a carreira ou a impedia de resolver pequenos problemas do cotidiano, mas nas questões amorosas, parecia não atrapalhar em nada. Tinha fama de ''pegadora'', o que já explica tudo. E é a trajetória dessa menina sempre tímida, importante intérprete brasileira, que os jornalistas Ana Claudia Landi e Eduardo Belo tentam reconstituir no livro ''Apenas Uma Garotinha - A História de Cássia Eller'' (Editora Planeta, 296 págs., R$ 35).
A história começa pelo fim, pela morte, cuja causa ainda provoca polêmica e colocou um ponto final em uma carreira que, depois de muitos tropeços, estava em plena ascensão. Os autores relatam momentos anteriores, de agitação e estresse, pelos quais Cássia passou, começando já no dia de Natal, data que ela não escondia odiar.
Veio então uma sucessão de aborrecimentos que a teria deixado supersensível. Naquela noite de Natal, o destempero de Cássia assustou a família. ''Num acesso de fúria, Cássia começou a bater a cabeça contra a parede. Não era a primeira vez que Eugênia via aquilo. (...) Mas a intensidade da crise a impressionou'', descrevem os autores. Tomou um ''sossega leão'' e adormeceu.
No dia 26, a cantora partiu para o Rio, com um olhar triste. Eugênia, a companheira, ficou preocupada com a situação e tentou monitorá-la com ajuda dos amigos. No Rio, depois de um ensaio, a cantora preferiu ficar sozinha em casa a voltar com a percussionista Lanlan. Teve um acesso de fúria, destruiu objetos e, na manhã seguinte, em busca de ajuda, mandou chamar a percussionista. Lanlan e uma outra amiga teriam tentado acalmar a cantora, levando-a para passear. Em vão. Acabaram por interná-la na clínica Santa Maria. O empresário dela, Ronaldo Villas, por aconselhamento do pai, não queria deixar Cássia lá. Mas ela teve parada cardiorrespiratória, a primeira de uma série. Cássia morreu naquele 29 de dezembro de 2001. Segundo boletim médico, Cássia havia sido internada com um ''quadro de desorientação e agitação, tendo evoluído para depressão respiratória e parada cardiorrespiratória.''
De acordo com os autores, a causa da morte não revelada foi prato cheio para a mídia, abrindo precedentes, inclusive, para boa parte da imprensa investir na versão de overdose. Eles descartam essa versão. ''Nós colocamos no livro aquilo que achamos ser a verdadeira causa da morte. Não foi overdose nem erro médico. Foi uma série de azares associada a um problema cardíaco pré-existente'', defende Ana. A tese do problema pré-existente é fundamentada em uma febre reumática contraída por Cássia quando ainda criança e morava em Belo Horizonte. ''(...) A doença pode também deixar uma sequela mais séria: a cardiopatia reumática crônica, um comprometimento do músculo cardíaco'', escreveram.
Passado o capítulo da controversa morte da cantora, ''Apenas Uma Garotinha'' faz um mergulho no universo de Cássia desde o nascimento, dando ênfase a lances interessantes de sua vida, como as primeiras namoradas. A primeira delas foi uma vizinha, num bairro suburbano no Rio. Um poço de timidez, Cássia a conheceu por intermédio da mãe, que pediu para a moça acompanhar a filha mais velha até o bairro do Méier, para fazer fotos 3x4. Iniciou-se ali uma estreita amizade. Logo, estavam apaixonadas.
Há menção ainda ao flerte entre Lanlan e Cássia, assunto que a percussionista sempre evitou comentar, mas que, de acordo com Ana, os amigos das duas confirmam. De acordo com o livro, Lanlan chegou a pressionar Cássia a deixar Eugênia. A resposta foi a mesma para todos aqueles com quem a cantora mantinha flertes paralelos ao casamento: ''Eu nunca vou deixar a 'Gininha'. Meu negócio com ela é eterno.''
Os autores dão detalhes também sobre as dificuldades que Cássia encontrou na sua carreira (muitas vezes, foi impulsionada pelas namoradas e amigos), o breve relacionamento com o músico Tavinho Fialho, pai de seu filho, Chicão, e como Eugênia entrou em sua vida. Eugênia, aliás, foi uma das contribuições importantes para o livro e de quem, aos poucos, os autores foram ganhando confiança. ''Fizemos um acordo com Eugênia. Ela leu os capítulos antes, mas não vetou nada'', conta Ana.
Durante um ano e meio, foram entrevistadas cerca de 50 pessoas. ''É um trabalho de reportagem que traz um retorno muito valoroso. Você se sente parte da vida da pessoa, sente-a próxima. Adorei.''


