O próprio Truman Capote surpreendeu-se ao descobrir que Gerald Clarke, então um dos principais redatores da revista ''Time'', preparava uma biografia sobre sua vida e obra. ''O livro dele deve ser fantástico, porque ele está trabalhando nisso há oito anos. Nunca ouvi falar de uma pesquisa assim'', comentou o escritor, opinião publicada em ''Conversas com Capote'', de Lawrence Grobel. Tamanha abnegação resultou na obra ''Capote - Uma Biografia'', lançada no Brasil em 1993 e que agora ganha uma reedição pela editora Globo (536 páginas, R$ 45,00). Capote é também alvo de uma cinebiografia, que traz o ator Philip Seymour Hoffman como protagonista.
O livro é um trabalho elogioso em todos os aspectos. Com perseverança e paciência para longas pesquisas que permitiram a descoberta de fontes até então inéditas, além de minuciosas entrevistas com o próprio Capote, Clarke conseguiu reconstruir a figura de um homem multifacetado, que mostrava a cada testemunha apenas um aspecto de sua personalidade. Por meio de seu relato, surge o jovem galã da literatura, o homossexual que viveu amores tumultuosos, o agitador mundano, o mitômano atraído por impulsos destruidores, o autor de contos brilhantes e do clássico ''A Sangue Frio'', e o homem que não resistiu ao impacto do vício do álcool.
Clarke foi cuidadoso também para evitar cair em armadilhas, especialmente as armadas por Capote. É o caso de não apontar apenas a impressão de seu biografado, oferecendo ainda outra versão do mesmo fato. Sobre sua infância, por exemplo, Capote trata das tias que o criaram com um tom que difere do utilizado pelo biógrafo.
A própria história da família de Capote faria inveja a qualquer autor. O pai era um talentoso vendedor envolvido com fracassos mirabolantes e a mãe, desejosa da segurança de um lar sólido, refugiava-se na cama de diversos amantes para esconder suas frustrações. Com os pais vivendo uma relação tão tumultuada, Truman foi abandonado, aos 6 anos, na casa de três solteironas, parentes da mãe, que construíram um lar sulista marcado por segredos e ressentimentos familiares.
A situação só melhorou quando a mãe encontrou a estabilidade ao se casar com Joseph Garcia Capote, filho de um coronel do Exército espanhol, que acabou oferecendo o sobrenome ao futuro escritor. Em determinados momentos, o leitor chega a suspeitar da veracidade das informações apresentadas por Clarke, tamanha a carga ficcional que cada uma carrega. Mas o autor teve o bom senso de não escrever um texto onisciente, ou seja, não se meteu a flagrar ''por dentro'' o que seria a alma de Truman Capote. Ao contrário com informações preciosas, ele faz o leitor especular por conta própria o que teria sentido Capote em suas depressões mais profundas.
Isso porque o jornalista e escritor, que se inspirava na oralidade das histórias que ouvia quando criança para criar uma prosa brilhante, tornou-se uma figura famosa, desejada por homens e mulheres, invejado por seus pares, mas que se sentia incrivelmente só. Clarke sustenta que Capote não sofria com a homossexualidade, mas por carência afetiva. Afinal, amou mulheres belíssimas mas apenas para ser e se mostrar amado. Resquícios de uma infância vivida na ansiedade de se ver abandonado.
Depois da consagração com ''A Sangue Frio'', a decadência veio de forma suave. Pouco a pouco, as pílulas, o álcool, as alucinações, as desesperanças e a solidão vitimaram o homem que não chegou a completar 60 anos, mas que marcara o destino da literatura mundial.

Excepcionalmente hoje deixamos de publicar a coluna ''Leitura'', de Marcos Losnak

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