Com a despretensão dos livros de bolso, chegou recentemente às prateleiras o volume ''Música Popular Brasileira Hoje'', trazendo 99 textos sobre 99 nomes da MPB. De medalhões a representantes das novas gerações, o elenco de artistas comentados deixou de fora outros tantos, lacuna compreensível pelos limites de formato da publicação.
A obra foi organizada pelo professor Nestor Nestrovski, que convidou escritores, poetas, críticos, jornalistas e intelectuais acadêmicos para escrever sobre seus artistas favoritos. Alguns tiveram que abrir mão de suas escolhas em virtude da coincidência de nomes solicitados. Um dos critérios para a inclusão no livro era que fossem artistas vivos, numa tentativa de registrar o panorama atual.
As presenças de Cássia Eller, Itamar Assumpção, Moacir Santos, Helena Meirelles e Braguinha explicam-se pelo fato de suas respectivas mortes terem ocorrido durante ou após a elaboração do trabalho. O londrinense Arrigo Barnabé desponta nas primeiras páginas em ensaio do sempre rigoroso jornalista Fernando Barros e Silva, para quem a ascensão e o posterior ostracismo a que foi relegado o compositor fornecem um ''testemunho histórico de certa inviabilidade brasileira''.
Fernando atribui um caráter premonitório a ''Clara Crocodilo'', o antológico álbum de estréia do paranaense, lançado em 1980. A saga do monstro mutante anunciaria, segundo ele, tanto a ''procissão de horrores do entretenimento de massas'' (como a pautar o curso desastroso da cultura brasileira) quanto a ''frustração histórica do país pós-redemocratização'' (da qual a decomposição acelerada da vida nas metrópoles seria um dos sintomas mais gritantes).
Amigo de Arrigo desde os velhos tempos em que participavam de festivais universitários em Londrina, o compositor Itamar Assumpção também figura na coletânea em texto da professora de crítica literária da Unicamp, Maria Betânia Amoroso. Aqui, o comentário enfatiza a trajetória de resistência do artista aos assédios do mercado. ''Sua música subsiste pela experiência de choque, que é de cada um de nós no desconforto da vida em São Paulo, inquieta a cada esquina, surpreendente em cada bairro, atordoante em todos os cantos'' - assinala num dos textos menos estimulantes da coletânea.
É a poeta curitibana Alice Ruiz, porém, que constrange os leitores com o - talvez - texto mais dócil da obra ao escrever sobre Arnaldo Antunes. ''A concentração poética mais completa de sua geração'', ''Vanguarda total em sua absoluta contemporaneidade'' e ''Talento que não cabe em uma só linguagem'' são algumas definições que ela vai empilhando ao longo dos poucos parágrafos. Em momento-veneração, conclui: ''Por tudo isso, é exemplo de inovação, tocando a todos com o mesmo desejo de criar - embora, às vezes, pareça impossível ir além do que ele já inventou''.
Com altos e baixos, ''Música Popular Brasileira Hoje'' reúne textos sobre Roberto Carlos (por André Singer), João Gilberto (Mario Sergio Conti), Chico Buarque (Maria Rita Kehl), Caetano Veloso (Carlos Rennó), Maria Bethânia (Lya Luft), Hermeto Pascoal (Carlos Calado), Guinga (Patricia Palumbo), Lobão (Mauro Bedaque Ferreira), Nação Zumbi (Soninha Francine), Skank (Michele Borges da Costa), Lenine (Pedro Alexandre Sanches), DJ Patife (Cássio Starling Carlos), Racionais MC's (Mario Cesar Carvalho), Otto (Bia Abramo), Sepultura (Lúcio Ribeiro) e mais uma penca.
''Mas por que 99 nomes e não 100?'', poderá indagar o leitor. Para evitar a ilusão de completude, responde Nestrovski em nota de pé de página, salientando que caberá ao leitor preencher a vaga restante com algum nome eventualmente injustiçado.

Serviço:
Lançamento: ''Música Popular Brasileira Hoje'' (Série Folha Explica), de vários autores
Publicação - Editora Publifolha
Quanto - R$ 23,00

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