O poeta cearense Adriano Espíndola, autor do livro premiado pela Academia Brasileira de Letras (ABL), em 2007, ''Praia Provisória'' (Topbooks - 2006), há alguns anos aluga um quarto na imaginação, com vistas para o mar revolto das palavras e o sol da lírica, onde cria fantasmas e não seres reais.
Ele pertence a estirpe dos poetas que, na filosofia grega, seriam imitadores da verdade e do bem - razão pela qual são temidos.
''Acho que os filósofos gregos estavam certos. Os poetas continuam criando fantasmas e não seres reais. Numa sociedade tecnocrática, consumista, competitiva e racionalista, como a nossa, não deve haver mesmo lugar para os cultores do imaginário e do sonho, das desordens da paixão e dos afetos, da reivenção do amor e do mundo'', compara o escritor, ampliando esse caráter do poeta ao afirmar que, ao contrário, o que o mundo quer são doses diárias de violência e cinismo, fazendo com que o homem ganhe marra para conseguir sobreviver - sem um pouco ou nenhuma poesia.
Autor de sete livros, entre os quais ''Em Trânsito: Táxi/Metrô'' (1996); ''Beira-Sol'' (1997), Prêmio da Fundação Biblioteca Nacional, e ''As artes de enganar: um estudo das máscaras poéticas e biográficas de Gregório de Mattos'' (2000) - todos publicados pela Topbooks - Espíndola quer ser reconhecido mais pela diversidade do que pela extensão da obra.
Livros que ao deixarem o quarto de imaginação, antes dos seus fantasmas atravessarem as paredes dos sentimentos do leitor, são domesticados por Moema, a esposa do poeta, autor que nasceu em Fortaleza, mas que há 13 anos mora no Rio de Janeiro, onde é professor visitante de Teoria Literária na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Espíndola põe nas mãos de Moema, a lâmina que corta qualquer rompante de vaidade.
''Gosto de dialogar sobre a vida literária da cidade, aqui no Rio, e sobre algumas obras do momento no País, trocando impressões e idéias. Quando termino um livro, costumo submetê-lo à apreciação, em primeiro lugar, da minha mulher, Moema, depois a alguns amigos, com uma condição: que dele façam um leitura cruel. Graças à solidária impiedade da mulher e dos amigos, não consegui ainda ser totalmente desmascarado'', completa o autor.
Não é preciso esse desmacaramento porque, como o próprio Espíndola afirma no livro de estréia ''Fala, favela'', ele escreve por onde pisa.
O crítico Domício Proença Filho considera o escritor ''o poeta da cidade e sua vertigem''. Um poeta que não olha para a cidade natal, como um retrato amarelo na parede, mas que volta sempre a Fortaleza para se refugiar em seu quarto de imaginações.
Nesse quarto, Fortaleza não é um mulher amargurada para ser louvada pela recordação ou que fica deitada num divã de lamentações da juventude. Ele quer tê-la entre os braços da própria arte como um desafio.
''Luminosamente áspera, onde é possível encontrar o drama humano e social, em qualquer esquina, rua ou subúrbio'', sonha acordado, o poeta com essa mulher.
Espíndola agradece por não morar numa casa, com muitos cômodos: a lírica, onde residem muitos outros poetas brasileiros em atividade, considerando também a existência de boas editoras do gênero.
O escritor conta que durante os anos em que passou nos Estados Unidos e na França, percebeu que é mais difícil ser poeta no exterior. Espíndola argumenta que os países desenvolvidos não têm interesse pela poesia, concentrando mais na ficção e no ensaio, como gêneros, que possuem apelos mercadológicos e acadêmicos maiores.
Espíndola aposta num momento de transição da literatura brasileira, que está sendo gerada na cultura pós-moderna, que aceita todas as formas. Porém, o autor aponta que não se traduz em um período inventivo e rico.
Apesar dos autores estarem bem informados, na sua opinião, não tem surgido obras originais e renovadoras. O poeta diz que alguns estão conseguindo escapar das tentações das vanguardas, que também conservam as suas tradições. Façanha que, acredita, esses escritores conseguem com força expressiva e imaginação, acrescentando que ninguém sabe o que permanecerá desse caldo.
Ao citar cadernos culturais, como ''Prosa & Verso'' (O Globo); ''Idéias'' (JB); ''Mais!'', (Folha de S. Paulo); ''Cultura'' (Estadão) e ''Rascunho'' - lembrando ainda alguns programas de televisão sobre resenhas e críticas - Espíndola considera difícil aos poetas entrar na mídia, avaliando importante a criação de programas de incentivo à leitura e valorização da literatura nas escolas.
''A internet interculturalizou o mundo. A galáxia de Gates engoliu a galáxia de Gutemberg, embora não tenha feito desaparecer o livro, como se supunha. Parece que a poesia continua sendo mesmo coisa de país periférico. Desconfio que os poetas hoje inventivos e inquietos do planeta se encontram na América Latina, Caribe e em alguns países emergentes da África e da Ásia. Talvez porque estejam mais próximos dos bichos e da terra devastada, de alguns deuses coléricos, do amor dos bárbaros e da urbanidade caótica. Essa mistura me parece liricamente explosiva para quem quer realizar uma poesia em tempos de crise'', afirma Espíndola.
O escritor confessa o desejo edipiano de arrastar para o quarto da imaginação a língua-mãe e transar com ela para poder se divertir com as palavras. ''Talvez por raiva de ser um e não trezentos, talvez para ganhar o aplauso dos frívolos e a admiração dos graves, talvez para salvar-me da loucura, talvez porque o santo baixe de vez em quando e é preciso atendê-lo com oferendas e palavras, talvez por preguiça de ganhar dinheiro, talvez para amar melhor, talvez para tentar deixar um traço, uma linha qualquer capaz de driblar o esquecimento, talvez por tudo isso e mais alguma coisa que não sei o que é'', afirma.
Antes do sol dormir e consumar esse desejo na alcova da língua-mãe, leito dividido com a inspiração, Espíndola diz que gosta de caminhar e aproveitar a luz solar, ''o pai do pensamento'', como ressalva no poema ''A árvore'', do livro ''Beira-Sol''.
''A partir daí, idéias surgem ou se tornam pelo menos mais claras. Escrevi vários poemas assim: bebendo a luz do sol da manhã e, à noite vinho. São dois bons combustíveis. Um para pensar; o outro, para sonhar'', conclui o escritor, que acabou de enviar um livro sobre Souzândrade (crítica e antologia) para uma editora de São Paulo, concentrando-se também na nova obra de poemas e relatos, ainda sem título e previsão de publicação.

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