Em seu novo livro "A Verdadeira História do Século 20", lançado em Portugal no fim do ano passado pela Apenas Livros – Coleção Cadernos Surrealistas Sempre - e ainda inédito no Brasil, o poeta , ensaísta e tradutor Claudio Willer faz homenagens ao cinema, resgata histórias desde os anos 60, mostra o plano de voo que guiou sua literatura. Na entrevista a seguir, ele aborda essas referências, falando das influências do surrealismo em sua obra. Também fala do livro "Geração Beat", lançado pela L&PM em 2009, que voltou recentemente às livrarias e é considerado uma referência da literatura para pelo menos duas gerações. Ele ainda se prepara para ministrar palestra numa mostra do Centro Cultural Banco do Brasil – DF, no início de julho, que tem como tema o movimento beat em livros e filmes.

Folha - Desde "Estranhas Experiências", publicado em 2004, até este livro lançado agora em Portugal, passaram-se 12 anos. É quase o mesmo espaço de tempo entre seu primeiro livro – "Anotações para um Apocalipse" (1964) - e o segundo - "Dias Circulares" (1976). Quais mudanças você percebe na sua poesia feita em ciclos relativamente longos?

Uma poesia mais reflexiva, certamente. Sem conseguir deixar de pensar sobre o que faço. Havia algo que antes era intuitivo, pura entrega ao fluxo de imagens, e que agora também passou a ser consciente. Observo o maior peso da memória, da evocação. Isso já vinha acontecendo, o marco é o poema "A princípio", segunda parte de "Sobre García Lorca", escrito em 1976, publicado em "Jardins da Provocação", onde declaro que "nós construímos a década de 60". Outro poema muito evocativo, "Chegar lá", foi escrito em meados da década de 1980 e publicado em "Estranhas Experiências": é todo feito de recortes de evocações, aconteceu-me algo que desencadeou lembranças. O que mais? Alguma ironia? Sutilezas, atenção para o intertexto. Antes, eu citava poemas que havia lido, sem perceber – o exemplo mais proveitoso, ao qual já dediquei ensaios, é a paráfrase de um poema de Allen Ginsberg, "Mensagem", dentro de meu poema sobre os corpos, "É assim que deve ser feito", de 1980. Hoje, percebo quando faço isso. Por exemplo, o poema do relato de sonho, "A verdadeira escrita automática", deste novo livro: "a viagem pela escuridão e suas luzes", ao escrever já percebi o que estava fazendo, que estava introduzindo um oxímoro. Quantas alusões, citações disfarçadas de outros poetas estão nesse poema de relato de sonho? Algumas, só eu sei e sou capaz de identificar.

Folha – "A Verdadeira História do Século 20" é sua visão do que realmente interessou neste século?

Neste século. Naquele século. Aliás, um século tão longo... Título irônico, não é? Fragmentos de evocação, imagens, frases sibilinas – o aparente oposto ou avesso de um registro factual, de um relato memorialístico. "A verdadeira vida não é aqui", havia declarado Rimbaud. Talvez seja minha tentativa de fixar algo da "verdadeira vida" – que está e ao mesmo tempo não está aqui.

Folha - Por que o cinema te interessa tanto, a ponto de você ter escrito uma série de poemas dedicados a Bergman, Reichenbach e Hitchcock, por exemplo?

Qual poeta, desde o começo do século 20, não é cinéfilo? O enorme impacto do cinema: realizou a poesia, trouxe as imagens, as sequências não discursivas, o maravilhamento. A nova sintaxe. "Vertigo" ou "Um corpo que cai" de Hitchcock já me havia maravilhado desde a primeira vez a que assisti – eu era adolescente. Na época, não ligaram muito, não fez sucesso e ficou muitos anos sem distribuição. Hoje, consta no topo de listas de melhores filmes. Mas também escrevi sobre um filme que não existe, ou existe apenas na minha imaginação – que eu saiba, nunca filmaram J.K. Huysmans.

Folha - Por que você lançou seu novo livro de poesia primeiro em Portugal e não no Brasil?
Por esteticismo? Simpatia com a relação especial dos portugueses com a poesia? Lembro-me uma vez em que estava em Lisboa, em um congresso de escritores, por volta de 1990 – acabava de sair uma nova edição de "Poesia Toda" de Herberto Helder – esse lançamento era dado, páginas inteiras, nos jornais, o livro estava na vitrine das livrarias, com destaque. Um poeta complexo como Helder, e radicalmente avesso ao mundanismo literário. Maria Estela Guedes, que tem um trabalho admirável como criadora e divulgadora, me convidou para publicar algo na coleção "Cadernos Surrealistas Sempre", encaminhei esses poemas. Agora, vou pensar no que será feito no Brasil, qual das alternativas resultará em algo.

Folha - Seu livro "Geração Beat", lançado em 2009, vendeu milhares de exemplares, depois saiu de circulação e volta agora às livrarias pela L&PM. Além disso, você também vai dar palestra sobre o tema numa grande mostra do CCBB-DF em julho. Na sua opinião, a que se deve este interesse constante pela literatura beat no Brasil?
"Geração Beat" havia vendido 7.200 exemplares antes de sair de circulação – retornou agora. Traduções – que também são coletâneas, organizadas por mim – de Allen Ginsberg venderam mais, embora não tenha números exatos. Interesse por autores beat se traduz em número crescente de publicações e em novas tiragens do já publicado. Isso desmente os que diziam – na década de 1980 e em tantas ocasiões – tratar-se de modismo passageiro. Acho que, além da expressão do inconformismo, da rebelião, o que atrai é a diversidade desses autores – Kerouac, Ginsberg, Burroughs, principalmente – e a qualidade. Em primeira instância, estamos falando de literatura: há um crescimento da bibliografia, da ensaística mostrando a riqueza e complexidade desses autores. Hoje, eles não são apenas lidos, porém estudados. Comprova-o, inclusive, eu ter sido chamado para fazer parte de bancas, nos últimos anos, de quatro boas teses ou dissertações sobre Kerouac.

Folha - A poesia em nosso país encontra-se num bom momento ou já esteve melhor em sua opinião?
A poesia continua em um bom momento, com a circulação ampliada pelo meio digital. O restante, o que é referido pelo sintagma "nosso país", é que se encontra em um péssimo momento, e com chances de piorar. O que vai ser de 2016? O que vai ser de nós em 2017...? Que a crise resulte em alguma transformação positiva, em alguma renovação dos termos desse paupérrimo debate político brasileiro.

SERVIÇO: A Verdadeira História do Século 20, de Claudio Willer. Apenas Livros, coleção Cadernos Surrealistas Sempre - Lisboa/Portugal. Encomendas: [email protected]
O livro, de 36 páginas, ainda não foi lançado no Brasil.

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