LITERATURA - A poética da imaginação
PUBLICAÇÃO
sábado, 18 de junho de 2016
Célia Musilli<br>Reportagem Local 
Em seu novo livro "A Verdadeira História do Século 20", lançado em Portugal no fim do ano passado pela Apenas Livros Coleção Cadernos Surrealistas Sempre - e ainda inédito no Brasil, o poeta , ensaísta e tradutor Claudio Willer faz homenagens ao cinema, resgata histórias desde os anos 60, mostra o plano de voo que guiou sua literatura. Na entrevista a seguir, ele aborda essas referências, falando das influências do surrealismo em sua obra. Também fala do livro "Geração Beat", lançado pela L&PM em 2009, que voltou recentemente às livrarias e é considerado uma referência da literatura para pelo menos duas gerações. Ele ainda se prepara para ministrar palestra numa mostra do Centro Cultural Banco do Brasil DF, no início de julho, que tem como tema o movimento beat em livros e filmes.
Folha - Desde "Estranhas Experiências", publicado em 2004, até este livro lançado agora em Portugal, passaram-se 12 anos. É quase o mesmo espaço de tempo entre seu primeiro livro "Anotações para um Apocalipse" (1964) - e o segundo - "Dias Circulares" (1976). Quais mudanças você percebe na sua poesia feita em ciclos relativamente longos?
Uma poesia mais reflexiva, certamente. Sem conseguir deixar de pensar sobre o que faço. Havia algo que antes era intuitivo, pura entrega ao fluxo de imagens, e que agora também passou a ser consciente. Observo o maior peso da memória, da evocação. Isso já vinha acontecendo, o marco é o poema "A princípio", segunda parte de "Sobre García Lorca", escrito em 1976, publicado em "Jardins da Provocação", onde declaro que "nós construímos a década de 60". Outro poema muito evocativo, "Chegar lá", foi escrito em meados da década de 1980 e publicado em "Estranhas Experiências": é todo feito de recortes de evocações, aconteceu-me algo que desencadeou lembranças. O que mais? Alguma ironia? Sutilezas, atenção para o intertexto. Antes, eu citava poemas que havia lido, sem perceber o exemplo mais proveitoso, ao qual já dediquei ensaios, é a paráfrase de um poema de Allen Ginsberg, "Mensagem", dentro de meu poema sobre os corpos, "É assim que deve ser feito", de 1980. Hoje, percebo quando faço isso. Por exemplo, o poema do relato de sonho, "A verdadeira escrita automática", deste novo livro: "a viagem pela escuridão e suas luzes", ao escrever já percebi o que estava fazendo, que estava introduzindo um oxímoro. Quantas alusões, citações disfarçadas de outros poetas estão nesse poema de relato de sonho? Algumas, só eu sei e sou capaz de identificar.
Folha "A Verdadeira História do Século 20" é sua visão do que realmente interessou neste século?
Neste século. Naquele século. Aliás, um século tão longo... Título irônico, não é? Fragmentos de evocação, imagens, frases sibilinas o aparente oposto ou avesso de um registro factual, de um relato memorialístico. "A verdadeira vida não é aqui", havia declarado Rimbaud. Talvez seja minha tentativa de fixar algo da "verdadeira vida" que está e ao mesmo tempo não está aqui.
Folha - Por que o cinema te interessa tanto, a ponto de você ter escrito uma série de poemas dedicados a Bergman, Reichenbach e Hitchcock, por exemplo?
Qual poeta, desde o começo do século 20, não é cinéfilo? O enorme impacto do cinema: realizou a poesia, trouxe as imagens, as sequências não discursivas, o maravilhamento. A nova sintaxe. "Vertigo" ou "Um corpo que cai" de Hitchcock já me havia maravilhado desde a primeira vez a que assisti eu era adolescente. Na época, não ligaram muito, não fez sucesso e ficou muitos anos sem distribuição. Hoje, consta no topo de listas de melhores filmes. Mas também escrevi sobre um filme que não existe, ou existe apenas na minha imaginação que eu saiba, nunca filmaram J.K. Huysmans.
Folha - Por que você lançou seu novo livro de poesia primeiro em Portugal e não no Brasil?
Por esteticismo? Simpatia com a relação especial dos portugueses com a poesia? Lembro-me uma vez em que estava em Lisboa, em um congresso de escritores, por volta de 1990 acabava de sair uma nova edição de "Poesia Toda" de Herberto Helder esse lançamento era dado, páginas inteiras, nos jornais, o livro estava na vitrine das livrarias, com destaque. Um poeta complexo como Helder, e radicalmente avesso ao mundanismo literário. Maria Estela Guedes, que tem um trabalho admirável como criadora e divulgadora, me convidou para publicar algo na coleção "Cadernos Surrealistas Sempre", encaminhei esses poemas. Agora, vou pensar no que será feito no Brasil, qual das alternativas resultará em algo.
Folha - Seu livro "Geração Beat", lançado em 2009, vendeu milhares de exemplares, depois saiu de circulação e volta agora às livrarias pela L&PM. Além disso, você também vai dar palestra sobre o tema numa grande mostra do CCBB-DF em julho. Na sua opinião, a que se deve este interesse constante pela literatura beat no Brasil?
"Geração Beat" havia vendido 7.200 exemplares antes de sair de circulação retornou agora. Traduções que também são coletâneas, organizadas por mim de Allen Ginsberg venderam mais, embora não tenha números exatos. Interesse por autores beat se traduz em número crescente de publicações e em novas tiragens do já publicado. Isso desmente os que diziam na década de 1980 e em tantas ocasiões tratar-se de modismo passageiro. Acho que, além da expressão do inconformismo, da rebelião, o que atrai é a diversidade desses autores Kerouac, Ginsberg, Burroughs, principalmente e a qualidade. Em primeira instância, estamos falando de literatura: há um crescimento da bibliografia, da ensaística mostrando a riqueza e complexidade desses autores. Hoje, eles não são apenas lidos, porém estudados. Comprova-o, inclusive, eu ter sido chamado para fazer parte de bancas, nos últimos anos, de quatro boas teses ou dissertações sobre Kerouac.
Folha - A poesia em nosso país encontra-se num bom momento ou já esteve melhor em sua opinião?
A poesia continua em um bom momento, com a circulação ampliada pelo meio digital. O restante, o que é referido pelo sintagma "nosso país", é que se encontra em um péssimo momento, e com chances de piorar. O que vai ser de 2016? O que vai ser de nós em 2017...? Que a crise resulte em alguma transformação positiva, em alguma renovação dos termos desse paupérrimo debate político brasileiro.
SERVIÇO: A Verdadeira História do Século 20, de Claudio Willer. Apenas Livros, coleção Cadernos Surrealistas Sempre - Lisboa/Portugal. Encomendas: [email protected]
O livro, de 36 páginas, ainda não foi lançado no Brasil.


