O filósofo francês Jean-Paul Sartre e sua mulher Simone de Beauvoir viveram a vida toda em casas separadas, mas compartilharam amantes e hoje repousam juntos, lado a lado, no mesmo cemitério. Tanta proximidade não escapou à escritora inglesa Hazel Rowley, que está no Brasil para promover ''Tête-à-Tête'', biografia do casal existencialista em que Simone é a heroína e Sartre quase um chauvinista, que não gostava de mulheres grávidas e agiu como um predador com as que caíram em suas armadilhas sexuais.
Seria um livro escandaloso se também não fosse sério. Hazel Rowley não é do tipo que fica vasculhando cartas exclusivamente atrás dos segredos sexuais de celebridades, até mesmo porque Sartre e Simone de Beauvoir fizeram de suas vidas literalmente um livro aberto, sem medo de expor a intimidade (mais, no caso da autora de ''O Segundo Sexo'').
Ícones do existencialismo, movimento deflagrado pelo pensamento filosófico de Sartre há mais de meio século, ele e sua mulher, segundo a biógrafa, ''estavam imbuídos de ilusão biográfica'', vale dizer, de que ''uma vida vivida pode parecer uma vida contada''. Sartre adolescente via-se, no futuro, como um homem famoso de quem falariam como ''o jovem Sartre'', da mesma maneira como nos referimos ao ''jovem Goethe''. Simone de Beauvoir queria comover o leitor com sua biografia, se possível construindo uma história tão memorável como a de Katherine Mansfield.
A biógrafa identifica nessa fantasia uma tentativa de construir um personagem, mas não para esconder algo do público. Diz que os dois estavam tão empenhados em expor a verdade que a noção burguesa de privacidade nem passava pela cabeça do casal. Ela conta que conheceu Simone de Beauvoir há 30 anos, em seu apartamento da rua Schoelder, em Montparnasse.
Fez perguntas desconcertantes sobre o relacionamento entre os dois, todas respondidas com a maior naturalidade pela escritora protofeminista. Hazel estranhou tamanho desprendimento: ''Entristeceu-me perceber que ela não conseguia separar a realidade de sua vida do mito''.
No ano dessa entrevista, 1976, o existencialismo já havia saído de moda há muito tempo. Sartre ultrapassara os 70 anos, estava cego, tinha sofrido o segundo derrame e sustentava antigas amantes, pois ''não respeitava um homem que deixava sua mulher ao deus-dará''. Isso num tempo em que as feministas estavam queimando sutiãs na rua. A morte de Sartre não estava distante e Simone, segundo a biógrafa, continuava a ter crises de choro e ansiedade, atribuídas pela autora de ''Todos os Homens são Mortais'' ao seu medo da morte e do vazio metafísico. Contradições.
Sartre não teria tanto apego à verdade, diz Hazel Howley, cuja tese de doutorado foi justamente sobre o existencialismo. Ela entrevistou seu secretário Jean Cau e obteve dele uma inconfidência: Sartre mentia um bocado para suas namoradas, chocando o secretário com sua ''noção de moralidade temporária''.
Assumir a liberdade, para Sartre, era criar a própria vida. Jean Cau não deveria ter ficado surpreso. Sartre era autoconstruído e Simone, que valorizava a verdade e a sinceridade, guardou para si a inveja que sentia de suas amantes, em especial a atriz Olga Kosakiewicz. O triângulo era escaleno, como se vê, com o lado maior sendo disputado pelos dois menores (não em tamanho, porque a biógrafa garante que, apesar de seus 1,58m, Sartre tinha centímetros de sobra para convencer as amantes, apesar da prática habitual do coitus interruptus).
Ele filosofava sobre a liberdade. Olga, escreve Hazel, ''era a liberdade''. Olga foi para ele uma obsessão ''devastadora para seu ego'', segundo a biógrafa. De quebra, ainda trouxe a irmã, Wanda, que passou a ser sustentada financeiramente por Sartre (após passar pela cama do amigo Albert Camus). Simone ficou mortificada.
A biógrafa explora igualmente os casos extraconjugais da escritora francesa, que gostava de sexo com moças bonitas (algumas delas encaminhadas a Sartre para uma análise anatômica mais detalhada). O cineasta grego Nikos Papatakis (de ''Os Pastores da Desordem'', filme produzido pelo brasileiro Samuel Wainer) diz que Sartre fazia justiça à própria miopia. ''Olga não era bonita, mas sexy'', atesta. ''Tinha um corpo andrógino, quase de menino'', conclui em seu depoimento à biógrafa.
O capítulo mais polêmico de seu livro é, no entanto, o sexto, dedicado aos anos de guerra, quando Sartre foi colocado sob suspeita pelos comunistas como espião da Resistência Francesa apenas por ler Heidegger, simpatizante do nazismo. A biógrafa dá muita atenção às festas orgiásticas promovidas por Bataille, em que Sartre cantava canções obscenas, e deixa para trás sua militância política. Talvez pretenda escrever um segundo volume. Assunto é o que não falta quando se trata do homem que disse que a existência precede a essência.

- Livro ''Tête-à-Tête'', de Hazel Rowley. Tradução: Adalgisa C. da Silva. Editora Objetiva. 462 págs. R$ 54,90.

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