LITERATURA - A imortalidade nas palavras de SCLIAR
PUBLICAÇÃO
sábado, 31 de março de 2007
Francismar Lemes<br> Reportagem Local 
Ao mergulhar nas águas caudalosas da vida e a própria obra, o escritor gaúcho Moacyr Scliar - na impossibilidade de fazer o tempo voltar - sobe à superfície dos seus 70 anos, recém-completados, respirando o ar da tranquilidade.
''É o melhor que eu pude fazer'', respira ainda mais profundo o escritor, que está finalizando o ensaio ''A Culpa'', que faz parte de uma coleção sobre grandes temas da condição humana, que será publicado pela Editora Objetiva.
Imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL), médico sanitarista, professor da Faculdade de Ciências Médicas de Porto Alegre (RS), Scliar esteve em Londrina, na última quarta-feira, como convidado do Centro de Ciências da Saúde do Hospital Universitário (CCS-HU), para abrir o ciclo de filmes ''Cine Humanidades'', com a palestra ''Influências das Humanidades sobre sua Vida e Obra''.
''Abordei um tema novo tanto na medicina, como na literatura, o humanismo médico e o lado humano da medicina. Um assunto que está na ordem do dia. Com a evolução da medicina e o aperfeiçoamento de tercnologias, não houve um avanço equivalente do relacionamento médico e pacientes, que se queixam muito do tratamento pessoal dos profissionais de saúde, que se restringem apenas aos exames e procedimentos'', disse.
Segundo o escritor, nos Estados Unidos aumentou o número de processos contra médicos e as escolas de medicina estão incluindo no currículo disciplinas como ética médica, sociologia médica, comunicação médica e também literatura e medicina. ''A idéia é alargar o horizonte cultural dos médicos e estudantes, sensibilizando-os para o lado humano'', ressalta Scliar, que é autor de mais de 70 livros, premiado com o Jabuti (1988 e 1989), prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA, 1989) e o Casa de Las Americas (1989). Scliar tem livros traduzidos para 12 idiomas, com obras adaptadas para o cinema, a televisão e o teatro.
A medicina e a obra de Scliar se encontram no paralelo da sua formação cultural judaico-cristã, mas a literatura o arrastou para as suas águas, quando o escritor ainda estava na manhã da vida.
''Fui alfabetizado muito cedo por minha mãe e logo comecei a colocar no papel as minhas historinhas. Trabalhei em muitos lugares e tive contato com a realidade da medicina e do próprio País'', ressalta o escritor.
Ao se banhar nessas realidades, Scliar passou por uma verdadeira revelação, se dando conta da condição humana dos brasileiros.
''Quando a pessoa está doente acaba se revelando, como é. Foi uma experiência também social. Sou de família pobre, que tinha um conhecimento pequeno da realidade brasileira. Aí comecei a ter muito assunto para abordar, através de ficção, ensaios, contos e crônicas'', completa o escritor, abrindo espaço para dizer que a literatura e a medicina lhe deixam muito feliz, encontrando tempo para devotar a vida às duas artes, absorvendo as horas de hotéis e aeroportos na companhia do autor, que não pára nunca de escrever.
Para ele, inspiração é como motor de arranque de um carro, que dá a partida mas não é suficiente. A literatura é a mesma coisa.
''A tua história só vai para frente se o autor dominar a técnica literária e trabalhar com a palavra como um instrumento estético'', aponta.
O realismo mágico de Scliar, que tem entre os seus expoentes Gabriel García Márquez, segundo uma conversa telefônica que manteve, é um barco que ultrapassa a superfície do fantástico, surpreendendo o leitor que tem a sensação de estar na terra firme da realidade.
Nesse entra e sai da ficção, Scliar vai deixando pelo caminho sátira e erudição em obras como ''A Mulher que Escreveu a Bíblia''ao reconstruir o cotidiano de Jerusalém no tempo de Salomão.
Colaborador da Folha de S. Paulo, desde a década de 70, recentemente em sua coluna no jornal Zero Hora, de Porto Alegre (RS), Scliar reconheceu um pequeno erro ao citar o livro ''Advertisements for Myself'', do escritor norte-americano Norman Mailer, ao dizer que a palavra ''advertisements'' significava ''advertências'', sendo que um leitor alertou que o significado é ''anúncios''.
''Sou um escritor que colobora com o jornal. Acho importante a gente reconhecer as nossas limitações. Existem leitores que, tranquilamente, poderiam assinar uma coluna, o que nos separa é obra do acaso. Escrever não é algo que se aprende na faculdade, depende da sua cultura, sensibilidade'', comenta o escritor.
Scliar tem leitores entre o público infanto-juvenil, calçando os sapatos coloridos do imaginário dessa fase da vida para andar, mais uma vez, sem levantar suspeitas de que a ficção não é realidade.
''Para mim é me colocar no lugar dos leitores. Eu volto ao tempo para ser aquele escritorzinho, leitorzinho que eu era, recuperando aquele jovem dentro de mim, deixando que ele fale e assim dou voz aos sonhos'', conclui Scliar.


