Curitiba - Numa época em que a televisão e a internet reinam absolutas na preferência de jovens e adolescentes, a literatura precisa ser rápida e certeira para conquistar o gosto desse público. E um segmento do gênero tem conseguido a façanha através de um programa desenvolvido pelo Itáu Cultural. O programa ''Crônica na Sala de Aula'' chegou na última sexta-feira aos professores da rede municipal de Curitiba. Na agenda do projeto, o escritor gaúcho Moacyr Scliar deu uma palestra aos professores, tendo a crônica como temática principal. A meta é fazer com que os professores que participaram do bate-papo sejam difusores da utilização da crônica na sala de aula.
O programa está sendo desenvolvido em várias cidades do Brasil e em Curitiba tem apoio da Fundação Cultural de Curitiba (FCC) e da Secretaria Municipal de Educação. É a primeira vez que uma parceria entre esses órgãos acontece na área de literatura. Além de participarem da palestra, os professores receberam um material de apoio com dicas sobre como trabalhar a crônica no currículo escolar. ''A idéia é que os professores que participam do programa disseminem o gênero na escola para outros professores e, principalmente, entre os seus alunos'', salienta a assessora de projetos da FCC Janine Malanski.
Ela revela que um dos principais diferenciais do programa é a possibilidade de traballhar o tema também com portadores de necessidades especiais, já que o material didático traz um CD com as crônicas narradas e sugestões de como esse trabalho pode ser feito. O material apresenta um panorama histórico da crônica no Brasil, além de textos selecionados e imagens de obras de arte que dialogam com as crônicas. Com tiragem inicial de 12 mil exemplares, a publicação traz textos de autores que vão desde Pero Vaz de Caminha, até os cronistas atuais, como Mário Prata, passando por Machado de Assis, João do Rio, Rubem Braga, Olavo Bilac e Lourenço Diaféria.
O texto ''Escravidão'', de Olavo Bilac, por exemplo, vem acompanhado de uma reprodução da obra ''Negro escravo'', de Jean-Baptiste Debret. ''O interessante é que o material dá a possibilidade de relacionar a literatura com outras artes, como as artes visuais'', analisa a professora de ensino da arte Daniela Pedroso. Ela argumenta que a crônica e as artes visuais se encontram e conquistam a atenção dos alunos porque a geração atual de jovens e adolescentes é ''essencialmente visual''.
Para a professora, a crônica deve funcionar como uma ''porta de entrada'' para a literatura. ''A crônica é um texto que tem mais entrada na sala de aula porque trata do cotidiano. Mesmo que o autor seja mais erudito em outros gêneros, na crônica ele tem uma linguagem mais informal, capaz de agradar mais aos alunos'', explica.
E justamente por ser um texto curto e fácil de trabalhar que a crônica foi escolhida como temática do programa. Em Curitiba, foram dois dias dedicados ao gênero. Na sexta-feira, o cronista gaúcho Moacyr Scliar falou para um público de cerca de 100 pessoas, a maioria professores, sobre a utilização da crônica entre os jovens. Nascido em Porto Alegre, em 1937, Moacyr Scliar é autor de 53 livros, em vários gêneros: conto, romance, crônica, ficção juvenil e ensaio e tem no público juvenil o seu principal alvo. No sábado, os professores participaram de palestras e vivências sobre as diversas maneiras de utilizar o gênero em sala de aula. Os professores ainda devem se reunir com a direção de suas respectivas escolas para definir como o tema será incluído nas aulas e em quais disciplinas.
Além da palestra de Scliar, o presidente da Fundação Cultural, Paulino Viapiana, e a diretora do Itaú Cultural, Renata Bittencourt, assinaram termo de cooperação para as ações conjuntas do programa ''Crônica na Sala de Aula''. ''A idéia é que essa acordo se estenda para outros projetos'', estima Renata. Ela conta que este programa específico está sendo desenvolvido em 14 estados desde o ano passado e já capacitou cerca de 8 mil professores. ''A demanda dos estados continua e a nossa meta é promover ações mais específicas nos próximos meses, como a realização de palestras com os escritores em outras cidades também'', revela.
A diretora do Itaú Cultural salienta que a principal meta do programa é mostrar a qualidade dos textos brasileiros e estimular o hábito da leitura entre os jovens. No Brasil, os mais importantes autores da história da literatura escreveram e escrevem crônicas sobre os mais diversos temas. É o caminho mais rápido para colocar no papel os sabores e dissabores do cotidiano.

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