Lisístratas contemporâneas
A Quaresma é propícia para se falar das crises mundiais, afinal o período é de reflexão e uma nuvem de violência encobre o mundo, desde as manifestações de rua no Brasil à crise na Ucrânia do outro lado do planeta depois que o presidente Viktor Yanukovich, apoiado por Putin, foi deposto.
Seria mais fácil falar de promessas de Quaresma, evocar jejuns, cumprir um rito de interiorização contra os quais não tenho nada contra. Aliás, prefiro a religiosidade a partir da interioridade do que o showbizz que várias igrejas cultivam ultimamente, com mãozinhas pra lá e pra cá durante os cultos, como um rebanho cantante de Sílvio de Santos. Sinal dos tempos em que os deuses da mídia assumem seu papel na religião espetacular. Prefiro as missas serenas que às vezes reencontro em igrejas simples, de bairros.
Ultimamente a movimentação política tem me instigado a reflexões sobre a fragilidade do mundo. Não chego a ser supersticiosa, mas a cena das pombas da paz sendo pegas por uma gaivota na missa do Papa Francisco, na hora do Ângelus, em 26 de dezembro passado, repercute em mim como um filme de mau agouro. Em outras ocasiões, como no tempo do Papa Bento XVI, já houve cenas iguaizinhas, parece que as gaivotas do Vaticano estão sempre de olho nas pombinhas, mas não deixa de ser um acaso surpreendente que naquela missa do Papa Francisco pedisse exatamente pela paz na Ucrânia, totalmente ameaçada menos de três meses depois.
Nós brasileiros, que pouco nos envolvemos com as crises do próprio País - como a questão indígena que clama por soluções ao mesmo tempo em que sofre retrocessos por conta das medidas do governo - decerto não vamos nos abalar com o que acontece do outro lado do mundo. Mas a História é assim, só nos afeta quando bate à porta de forma irreversível e muita gente acha que estamos na iminência de um conflito mundial tendo em vista os últimos acontecimentos.
Da minha parte não tenho bem certeza que a crise da Ucrânia ultrapasse seus limites territoriais. Por quê? Porque Putin promete e cumpre retaliação política enquanto os EUA se limitaram a "cuspir na risca" como um garoto que faz ameaças, mas fica por aí mesmo. A União Europeia, da qual a Ucrânia foi impedida pelos russos de fazer parte, tampouco quer se envolver num conflito destas proporções tendo em vista que vários países dependem de energia fornecida pelo gás russo, distribuído pela Gazprom, altamente poluente e que abastece a Europa a partir de uma rede localizada justamente na Ucrânia. Quem vai querer mexer com um vespeiro desses?
Na falta de atitude tanto dos EUA quanto da UE, que se limitam a "cuspir nas riscas", sobram clamores populares como o das mulheres do FEMEN europeu, um grupo ativista, conhecido na mídia por mostrar seios nus e usar coroas de flores em protestos.
Não sou ingênua a ponto de achar que as FEMEN podem alguma coisa contra o exército russo. Mas não deixa de ser altamente simbólico que estas guerreiras do século 21 apareçam em cena, como as amazonas míticas, num enfrentamento com o poder patriarcal.
Neste sentido, não posso deixar de pensar na Lisístrata, comédia antiguerra escrita por Aristófanes em a.C 411. Quando esta peça foi escrita, Atenas atravessava um período difícil. Abandonados por aliados, os atenienses enfraquecidos enfrentavam Esparta. A peça faz uma crítica envolvendo as mulheres na Guerra do Peloponeso, lideradas por uma ateniense chamada Lisístrata que institui uma greve de sexo até que os maridos parem a luta. No fim, graças às mulheres, as duas cidades celebram a paz.
Estamos longe de chegar a um resultado destes nos dias de hoje, mas não deixa de ser altamente simbólico que as FEMEN invadam a Crimeia para protestar contra Putin. É o desafio feminino encarando o autoritarismo masculino de esquerda ou direita. No fundo, são ainda as mulheres que devem ensinar os homens a serem homens. Não basta "cuspir na risca" e colocar o mundo em convulsão. Os conflitos clamam por soluções e as guerreiras modernas não empunham armas, comportam-se como símbolos vivos da liberdade, o que já é um grande desafio a desestabilizar espartanos.





