O Planet Hemp envia novos sinais de fumaça: a banda lança seu terceiro disco, ainda sem nome, neste mês. ‘‘Fizemos um disco com o ‘‘punch’ do primeiro (‘‘Usuário’’, de 1995) e com a variedade do segundo (‘‘Os Cães Ladram, mas a Caravana Não Pára’’, de 1997). A gente se preocupou bastante com a sonoridade’’, disse o vocalista Marcelo D2 em frente ao casarão repleto de grafites e pichações que abriga o estúdio onde a banda gravou o novo trabalho, no bairro de Laranjeiras, na zona sul do Rio.
O novo CD é realmente o mais variado do Planet Hemp, que começou como grupo de rap e, posteriormente, se revestiu de rock suingado e pesado, característica de seu primeiro álbum – que, por sinal, já trazia até sambinha.
O terceiro disco adiciona ao liquidificador sonoro estilos nunca antes explorados pela banda, como um reggae – com participação especial de Seu Jorge, cantor da extinta banda Farofa Carioca – que, no final, transmuta-se em um dub (uma espécie de versão psicodélica do gênero jamaicano, baseada no baixo e na bateria). ‘‘Nosso único reggae, bem de longe, a 120 por hora, era ‘‘Dig, Dig, Dig’’’, disse D2 – e uma moda de viola que lembra, por incrível que pareça, o trovador paraibano Zé Ramalho.
Esta última – ‘‘uma vinheta’’, segundo o vocalista – foi gravada em um estúdio portátil de quatro canais na garagem da casa-estúdio da banda, entre bicicletas velhas, um vaso sanitário quebrado e um letreiro luminoso de uma drogaria. ‘‘Roubamos de uma farmácia lá embaixo’’, brinca D2.
A banda volta à ativa após um recesso forçado. Em novembro de 97, em meio à turnê do segundo álbum, seis integrantes do grupo ficaram presos em Brasília, acusados de apologia às drogas e de formação de quadrilha -o grupo defende a legalização da maconha em suas letras.
‘‘A gente foi perseguido durante dois anos’’, afirmou D2. ‘‘A prisão foi o ápice. Houve um desgaste, ninguém estava mais a fim de ficar na estrada tomando porrada da polícia.’’ Em 98, o vocalista lançou um disco solo (‘‘Eu Tiro É Onda’’), centrado no rap.
Em junho do ano passado, D2 encontrou-se com o guitarrista Rafael, que havia deixado o grupo antes da prisão, em um show da Nação Zumbi, em São Paulo. ‘‘Fomos até a (gravadora) Sony e avisamos que iríamos lançar um disco novo em setembro.’’ O atraso ocorreu porque a banda resolveu montar um estúdio próprio, na antiga casa do vocalista, onde seu álbum solo foi gravado, em meio a pôsteres de mulheres nuas e discos em vinil antigos de Martinho da Vila e Wilson Simonal.
Todo o repertório do novo CD, que terá entre 15 e 20 faixas, foi composto no estúdio, em um ‘‘esquema caseiro’’ – a banda levou 45 dias na gravação.
‘‘A gente começou a tocar umas coisas novas, menos comuns, como jazz, bossa nova, procurando a evolução do som da banda, mas ainda mantendo o pique roqueirão’’, disse o guitarrista Rafael.
Ao ser indagado sobre a formação atual do grupo, D2 se enrosca. ‘‘Ih, rapaz, sei lá. Acho que estamos em sete.’’ Além de D2 e de Rafael, completam a banda os vocalistas B-Negão e Gustavo Black Alien, o baixista Formigão, o DJ Zé González, o baterista Pedrinho e o tecladista Daniel. São oito. ‘‘A gente está a fim de botar um ‘‘percussa’. O cara que tocava com a gente casou com uma dinamarquesa e sumiu’’, lamenta D2.
Também está nos planos futuros do Planet Hemp a carreira internacional. O novo disco, mixado pelo produtor Mario Caldato Jr. – que trabalhou com os Beastie Boys –, traz participação em espanhol do rapper Sean Dog, do Cypress Hill. ‘‘A língua não é barreira, nosso som é universal.’’ E a maconha, D2, e a maconha? ‘‘Não falamos só de maconha, falamos de uma legislação falha e antiga, de mais de 40 anos. Sempre tivemos um lado político. Mas parece que as pessoas não prestam atenção no que a gente diz’’, afirma. ‘‘Duro é ver 250 policiais serem mobilizados para dar geral no público dos nossos shows. Deixem a gente em paz. Não é essa molecada que comete crime. Não temos sangue de barata, não somos maconheiros safados.’’

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