LIQUIDIFICADOR SONORO
PUBLICAÇÃO
domingo, 07 de maio de 2000
Agência Folha 
O Planet Hemp envia novos sinais de fumaça: a banda lança seu terceiro disco, ainda sem nome, neste mês. Fizemos um disco com o punch do primeiro (Usuário, de 1995) e com a variedade do segundo (Os Cães Ladram, mas a Caravana Não Pára, de 1997). A gente se preocupou bastante com a sonoridade, disse o vocalista Marcelo D2 em frente ao casarão repleto de grafites e pichações que abriga o estúdio onde a banda gravou o novo trabalho, no bairro de Laranjeiras, na zona sul do Rio.
O novo CD é realmente o mais variado do Planet Hemp, que começou como grupo de rap e, posteriormente, se revestiu de rock suingado e pesado, característica de seu primeiro álbum que, por sinal, já trazia até sambinha.
O terceiro disco adiciona ao liquidificador sonoro estilos nunca antes explorados pela banda, como um reggae com participação especial de Seu Jorge, cantor da extinta banda Farofa Carioca que, no final, transmuta-se em um dub (uma espécie de versão psicodélica do gênero jamaicano, baseada no baixo e na bateria). Nosso único reggae, bem de longe, a 120 por hora, era Dig, Dig, Dig, disse D2 e uma moda de viola que lembra, por incrível que pareça, o trovador paraibano Zé Ramalho.
Esta última uma vinheta, segundo o vocalista foi gravada em um estúdio portátil de quatro canais na garagem da casa-estúdio da banda, entre bicicletas velhas, um vaso sanitário quebrado e um letreiro luminoso de uma drogaria. Roubamos de uma farmácia lá embaixo, brinca D2.
A banda volta à ativa após um recesso forçado. Em novembro de 97, em meio à turnê do segundo álbum, seis integrantes do grupo ficaram presos em Brasília, acusados de apologia às drogas e de formação de quadrilha -o grupo defende a legalização da maconha em suas letras.
A gente foi perseguido durante dois anos, afirmou D2. A prisão foi o ápice. Houve um desgaste, ninguém estava mais a fim de ficar na estrada tomando porrada da polícia. Em 98, o vocalista lançou um disco solo (Eu Tiro É Onda), centrado no rap.
Em junho do ano passado, D2 encontrou-se com o guitarrista Rafael, que havia deixado o grupo antes da prisão, em um show da Nação Zumbi, em São Paulo. Fomos até a (gravadora) Sony e avisamos que iríamos lançar um disco novo em setembro. O atraso ocorreu porque a banda resolveu montar um estúdio próprio, na antiga casa do vocalista, onde seu álbum solo foi gravado, em meio a pôsteres de mulheres nuas e discos em vinil antigos de Martinho da Vila e Wilson Simonal.
Todo o repertório do novo CD, que terá entre 15 e 20 faixas, foi composto no estúdio, em um esquema caseiro a banda levou 45 dias na gravação.
A gente começou a tocar umas coisas novas, menos comuns, como jazz, bossa nova, procurando a evolução do som da banda, mas ainda mantendo o pique roqueirão, disse o guitarrista Rafael.
Ao ser indagado sobre a formação atual do grupo, D2 se enrosca. Ih, rapaz, sei lá. Acho que estamos em sete. Além de D2 e de Rafael, completam a banda os vocalistas B-Negão e Gustavo Black Alien, o baixista Formigão, o DJ Zé González, o baterista Pedrinho e o tecladista Daniel. São oito. A gente está a fim de botar um percussa. O cara que tocava com a gente casou com uma dinamarquesa e sumiu, lamenta D2.
Também está nos planos futuros do Planet Hemp a carreira internacional. O novo disco, mixado pelo produtor Mario Caldato Jr. que trabalhou com os Beastie Boys , traz participação em espanhol do rapper Sean Dog, do Cypress Hill. A língua não é barreira, nosso som é universal. E a maconha, D2, e a maconha? Não falamos só de maconha, falamos de uma legislação falha e antiga, de mais de 40 anos. Sempre tivemos um lado político. Mas parece que as pessoas não prestam atenção no que a gente diz, afirma. Duro é ver 250 policiais serem mobilizados para dar geral no público dos nossos shows. Deixem a gente em paz. Não é essa molecada que comete crime. Não temos sangue de barata, não somos maconheiros safados.


