Linhas tortas
PUBLICAÇÃO
sábado, 27 de junho de 2015
Geraldo Bessa<br>TV Press 
Existe um longo caminho desde a idealização de uma novela até o resultado final na tela. Na Globo e na Record, emissoras que mais investem em um gênero mais tradicional de teledramaturgia, escritores sugerem as próprias ideias ou trabalham sob encomenda. E o ponto de partida de quaisquer dessas histórias é a sinopse, espécie de resumo dos temas, personagens e ações que serão a espinha dorsal das tramas.
Com o período de pré-produção das novelas cada vez mais adiantado, autores também trabalham de forma antecipada. É que, antes do sinal verde para produção, as sinopses precisam ser apreciadas pelos diretores de dramaturgia, que avaliam riscos, apelos de audiência e horários de exibição mais adequados para os projetos.
Na Record, atualmente, é Anderson Souza quem gerencia o que deve ou não ser produzido pela emissora. Na Globo, o autor Silvio de Abreu foi alçado ao cargo de Diretor de Teledramaturgia Diária há pouco mais de sete meses. "É preciso analisar não só a novela, mas onde ela se encaixa no projeto de teledramaturgia pelo qual a emissora está passando. Se não tem assuntos e ambientes repetidos com outras tramas, como serão abordados os assuntos mais polêmicos, quais os atores e diretores necessários", explica Silvio.
A entrada de Silvio no cargo acabou por alterar a previsão e a ordem de algumas tramas. "Sete Vidas", por exemplo, foi pensada para ser a primeira novela inédita do horário das 23 horas. No entanto, sabendo do caráter mais leve e humanizado da trama, além da boa comunicação da autora Lícia Manzo com o público das seis, a história acabou tendo sua faixa alterada. Com a mudança, Lícia teve de escrever cerca de 30 capítulos a mais. "Não teve susto. Trabalho nesse projeto desde o final de 2013. E fui informada sobre a troca de faixas em abril do ano passado. Adaptei para o horário, já que a classificação indicativa é bem diferente, e tive tempo de pensar em novos acontecimentos", conta Lícia.
O método de trabalho de cada autor conta muito na hora de idealizar uma trama. Disciplinada, Elizabeth Jhin vem pensando na história de "Além do Tempo" desde o ano passado. Por conta da sinopse bem acabada e avaliada pela cúpula da emissora, acabou saindo na frente de outros autores. Depois de poucos ajustes, a novela dividida em épocas distintas foi aprovada e ganhou a direção de núcleo de Rogério Gomes. "A Globo trabalha de forma séria. Depois de aprovada, dificilmente a novela será cancelada. Quando entra o diretor de núcleo, então, tudo começa a ganhar forma. Eu tenho total confiança no Rogério e não abro mão de trabalhar com ele", ressalta Jhin.
Nos horários das seis e das sete reside a maioria das sinopses mais inovadoras em relação aos costumeiros "novelões". A aventureira "Além do Horizonte" e a "disco" "Boogie Oogie" não estavam na fila da Globo. Foram projetos entregues como "apostas" à emissora por seus autores e sob a proteção do diretor de núcleo Ricardo Waddington. "A gente tem o dever de ousar. As histórias passaram por adaptações próprias da 'casa', mas tivemos total liberdade de concepção e desenvolvimento", garante Ricardo.
Por conta de problemas e atrasos no passado, além da sinopse, alguns autores precisam entregar capítulos fechados da trama para evitar imprevistos. Benedito Ruy Barbosa teve de se comprometer e entregar metade dos cerca de 100 capítulos do remake de "Meu Pecadinho de Chão" assim que a novela foi aprovada.
Pouco comum na emissora, a tática foi proposta também pela presença de Luiz Fernando Carvalho como diretor de núcleo. Detalhista e nada convencional, o diretor precisaria de mais tempo do que o normal para gravar as cenas. "Eu aproveitei a inspiração e entreguei logo tudo. Nunca tinha feito isso na minha vida! A novela estava prontinha antes da estreia", valoriza Benedito.
Toque de caixa
Com planos cada vez mais confusos para o setor de teledramaturgia, a Record vem mudando a forma de trabalhar. A entrada de "Os Dez Mandamentos" na grade, por exemplo, foi uma surpresa. Motivada pela boa repercussão das séries bíblicas, a novela foi encomendada a toque de caixa. "O mais complicado desse tipo de trabalho épico é o processo de pesquisa. Trabalho ao lado de dois pesquisadores e tivemos de voar com o processo de preparação da sinopse", conta a autora Vívian de Oliveira.
Trabalhando de forma mais tranquila, a equipe de autores e colaboradores de "Escrava Mãe" já estava com quase tudo pronto quando a Record resolveu terceirizar a produção da trama, que será feita pela Casablanca Filmes. "Por se tratar de uma produção feita fora da Record, foi essencial que a equipe tivesse se adiantado na entrega dos primeiros capítulos. Assim, a gente pode trabalhar com folga quando a novela já estiver no ar", torce o titular Gustavo Reiz.
Instantâneas
# "Escrava Mãe" contará a trajetória da escrava que deu à luz a personagem-título do romance "A Escrava Isaura". Exibida em 2004, a adaptação da Record para o livro de Bernardo Guimarães marcou a retomada do setor de teledramaturgia da emissora.
# Prevista para às sete da noite, a sinopse de "Boogie Oogie" teve de ser adaptada para o horário das seis às pressas.
# A sinopse de "Alto Astral" foi entregue no início de 2009, alguns meses antes da morte da autora Andréa Maltarolli. Incentivador da história, Silvio de Abreu assumiu a supervisão e escalou a novela para ser exibida no final de 2014, sob a assinatura de Daniel Ortiz.
# Carlos Lombardi saiu da Globo no final de 2013 e se ressente das sinopses escritas e não aprovadas pela emissora. A principal é a de "João ao Cubo", trama futurista que teve sinal verde da emissora, mas acabou engavetada.
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