'Linha de Passe': Brasil é aprovado com louvor em Cannes
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segunda-feira, 19 de maio de 2008
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> De Cannes, especial para a Folha2 
Foram prolongados e emocionantes dez minutos cravados de aplausos ao final da sessão de gala que consagrou no 61º Festival de Cannes o mais recente filme de Walter Salles, ''Linha de Passe'', realizado em parceria com Daniela Thomas. O filme, exibido em mais uma rodada da mostra competitiva, recebeu ótimas resenhas da crítica em geral e entra tranquilamente na faixa dos potenciais postulantes a prêmios - o conjunto de atores é excelente, para ficar com a qualidade que se impõe de imediato.
Doze anos depois de ''Terra Estrangeira'', Walter Salles e Daniela Thomas estão de volta à tarefa de retratar o Brasil urbano. ''Linha de Passe'' atualiza aquela visão do terrível vácuo pós governo Collor, e é melhor sucedido, tanto como drama quanto um flagrante da realidade de crescer na pobreza com pouco ou nenhum futuro à vista. Neste sentido, o filme segue na contramão do ''milagre Lula'' e enfatiza o profundo desnível social.
O filme aos poucos se impõe com raro vigor, a partir do elenco quase inteiramente não profissional, de um estilo profundamente realista aliado a um poderoso roteiro e ao ritmo trepidante, que não permite ao espectador nenhum momento de dissipação diante da trama sobre uma mãe solteira e seus quatro filhos de pais diferentes (e um quinto a caminho), morando na sempre distante e sempre carente periferia de São Paulo.
Em ''Linha de Passe'' vivem Cleuza (Sandra Corveloni), doméstica e grávida, seus três filhos adolescentes e um quarto, o garoto Reginaldo, o único negro, filho de um motorista de ônibus. Dario (Vinicius de Oliveira, de ''Central do Brasil'') é craque de futebol amador em busca do sonhado profissionalismo; Dinho (José Geraldo Rodrigues) trabalha no limite do risco como motoboy pelas ruas da megalópole e tem um filho com uma de suas namoradas; Denis (João Baldasserini), por sua vez, tenta escapar do entorno sem perspectivas mergulhando na religião evangélica, enquanto o caçula Reginaldo (Caíque Santos Ferreira, uma autêntica revelação), vai de ônibus em ônibus em busca do pai. Na visão de Salles e Daniela, nesta sociedade a um só tempo órfã de pai e ''padrasta'', na qual pobreza e violência são sinônimos, a irmandade pode se tornar uma espécie de salvação.
A maioria das platéias - exceção aos iniciados - não fará a conexão, mas uma comparação com ''Rocco e Seus Irmãos'', de Visconti, é inevitável. No entanto, isto de fato importa pouco, porque ''Linha de Passe'' carrega uma enorme dose de força e sinceridade na abordagem sociológica deste painel humano. Impossível ficar alheio às personalidades destes quatro irmãos, às suas ansiedades nesta roda viva de treinos de futebol, trabalho, sexo, drogas e assaltos, sempre colocados contra a parede, e tendo como pano de fundo um trânsito selvagem, igrejas e estádios de futebol fanatizados.
O instável fim de semana entre sol e chuva, calor e frio, ajudou a lotar todas as salas de exibição do festival. Filmes não faltam, obviamente. Na verdade sobram; e como, na agenda apertadíssima de quem não pretende abrir mão de nada. Uma vez que tudo é importante na classificação cinéfila, o estresse aumenta no momento de escalar a seleção. Passado o furor Indiana Jones, a programação retoma sua linha de austeridade artística e os autores voltam a dominar o panorama. Nem sempre com excepcional rendimento, mas na melhor tradição de Cannes.
''24 City'', correndo atrás da Palma de Ouro, é o novo docudrama do chinês Jia ZangKe, veterano caçador de Leões de Ouro em Veneza. Documentário e ficção muitas vezes não são bons companheiros, mas nas mãos deste chinês a coisa funciona, e sempre muito bem. Aqui ele faz a crônica social e muito lírica de uma antiga indústria aeronáutica que é desmontada para dar lugar a um condomínio. É uma meditação sobre as transformações que ora ocorrem na China, na verdade um poema nostálgico que não deixa de auferir o desgaste humano contido nas aceleradas mudanças que ocorrem no país.
Curto e muito grosso, ''Serbis'' (Serviço, em filipino) causaria escândalo há dez anos com seu sexo explícito - felatio inclusive -, mas hoje suas cenas toscas sobre um cinema decadente que abriga família disfuncional e uma platéia de gays e velhos solitários que assiste filmes pornô não provoca mais do que tédio. O diretor Brilhante Mendoza pratica um enfoque neorealista, parte homenagem ao cinema, parte drama doméstico. O filme vale pela sala de cinema em si, a gloriosa decadência explorada em cada detalhe sórdido de sua estrutura física. Há ali, ainda que rudimentar, uma certa poesia.
Fora de competição, a nova comédia-quase-dramática de Woody Allen, ''Vicky Cristina Barcelona'', não acrescenta quase nada à filmografia do diretor, o que no caso pode ser um elogio. Distante de seu último e sombrio ''O Sonho de Cassandra'', voltou a fazer mais do mesmo, e bem. E com tempero caliente por conta de Javier Bardem e Penélope Cruz, hilários.
Duas jovens americanas, uma desinibida (Scarlett Johansson) e a outra sensível e realista (Rebecca Hall), passam férias de verão em Barcelona. Ali conhecem e se envolvem a fundo com o pintor Juan Antonio (Bardem). Que por sua vez tem uma ex-mulher à beira de um... não, na verdade em pleno ataque de nervos. Allen é sempre seguro em suas armações afetivas, e sabe como ser irônico sem ferir suscetibilidades de ninguém. Aqui, principalmente a dos espanhóis.
O jornalista viajou a convite da organização do Festival de Cannes


