A história da humanidade, esse emaranhado de acontecimentos e personagens, que se sucedem num tempo cronológico definido, mas que parece se repetir, em novas configurações, indefinidamente, é pontuada aqui e ali por frases de efeito. São afirmações sérias, irônicas ou engraçadas, mostrando que o homem evolui, sem dúvida, mas nem tanto quanto se gostaria.
Ontem como hoje, por exemplo, a corrupção continua sendo uma arma dos poderosos, usada para provar que nenhum homem está acima da sedução dos bens materiais. Será? Diógenes, que viveu de 413 a 323 a.C. na Grécia da Antiguidade, berço da filosofia, resistiu bravamente. Era chamado de ''Cínico'' porque desprezava as riquezas e as convenções sociais. Mas, agindo de acordo com aquilo em que acreditava, andava por Atenas descalço, possuía uma única e desgastada túnica e optara por ''morar'' num barril. Apesar do respeito que angariara como filósofo e que poderia lhe trazer um substancial rendimento, estava sempre buscando eliminar o supérfluo de sua vida. Um dia, vendo uma criança beber da água de uma fonte, utilizando o côncavo das mãos, quebrou a escudela (tigela de madeira) que usava e passou a tomar água da mesma forma.
Entre outras frases que o celebrizaram, encontra-se a resposta que deu a Alexandre Magno (356 a.C. - 323 a.C.), rei da Macedônia e grande conquistador da Antiguidade, inclusive dos gregos, quando se encontraram na cidade de Corinto. Como bom filósofo, Diógenes pensava nas candentes questões da existência ao ar livre, aproveitando os últimos raios luminosos do dia. De repente, a claridade encheu-se de sombra. Era Alexandre que se aproximara e, com o objetivo de desmistificar o filósofo, perguntou se ele desejava alguma coisa.''Sim'', disse Diógenes, ''desejo que saias da frente do meu Sol.''
Ontem, como hoje, os bons oradores podem se revelar perigosos. Na Roma antiga, terra dos influentes Césares e do domínio absoluto do que se considerava civilizado na época, a oratória era tão prestigiada que foi elevada à condição de arte. Marco Túlio Cícero (106 a.C. - 43 a.C.), cônsul romano, foi um desses primorosos artistas da palavra, com discursos repletos de estilo, veemência e conteúdo e, por tudo isso, capazes de incomodar os dissimulados e acuar as feras escondidas sob a pele de cordeiro. Antônio, por exemplo, o sucessor indicado por César, e a quem Cícero havia se oposto, não gostou nem um pouco dos discursos do cônsul a seu respeito. Querendo calá-lo para sempre, mandou não só que o matassem, como atravessassem sua língua com um estilete e cortassem sua cabeça, para expô-la na tribuna dos oradores.
A despeito do sinistro radicalismo de Antônio, as palavras de Cícero perduraram na história e entre suas inúmeras frases de efeito, vale destacar aquela que inicia o discurso de desmascaramento de Catilina, que conspirara contra Roma e ousara apresentar-se perante o Senado como se nada tivesse ocorrido: ''Até quando, Catilina, abusarás da nossa paciência?''. A quantos políticos do nosso tempo não gostaríamos de interpelar da mesma forma? Também é de Cícero a desalentada reflexão: ''O tempora! O mores!'' (''Oh, tempos! Oh, costumes!''), referindo-se à perversidade dos homens de sua época. Mais atual, impossível!
Ontem, como hoje, observa-se que o poder não só é capaz de corromper, como de levar à loucura. Michael Jackson que o diga! Ainda na Roma antiga, vamos encontrar os ''bad boys'' Calígula e Nero, que ficaram muito famosos não por suas boas ações, naturalmente. Os soldados haviam dado a Caio César Augusto Germânico o apelido de Calígula (diminutivo de cáliga: sandália), com o qual esse imperador romano, que reinou do ano de 37 ao de 41, se tornaria mais conhecido. Talvez ele não gostasse muito do apelido ou, mais provavelmente, não gostasse mesmo das pessoas em geral. O que se sabe é que, além de outorgar a seu cavalo Incitatus o título de cônsul, Calígula mantinha todos à distância com a seguinte frase: ''Odeiem-me, mas temam-me!''.
Já Lúcio Domínio Nero Cláudio, ou apenas ''Nero'', para os íntimos da história, ficou no poder de 54 a 68 e foi notável pela crueldade. Mandou matar várias pessoas de seu relacionamento próximo, entre elas a mãe, Agripina, sua mulher, Otávia, cuidando ele próprio de matar a segunda esposa, Popéia. Responsabilizou-se, igualmente, pela matança de cristãos, no circo, ou, numa versão mais pirotécnica, na área externa de sua residência, untando-os de pez e fazendo-os de archotes, para iluminar os jardins. Teria sido o autor do incêndio de Roma, no ano de 64. Embora não haja provas conclusivas a respeito, dizem que, enquanto Roma ardia, ele era visto tocando lira e entoando um hino sobre o incêndio de Tróia. Acabou fugindo da cidade e, prestes a ser agarrado, prevendo o triste fim que o esperava, preferiu fazer-se matar por um criado, proferindo a frase famosa: ''Que grande artista o mundo vai perder!''.
Serviço: Mais frases que ficaram para a história no livro ''Frases Célebres Notáveis'', de Sílvio Ferraz de Arruda, Editora Nobel, 1998.

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