Linguagem televisiva invade o 'Auto' do cinema
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 26 de setembro de 2000
Simone Mattos De Curitiba 
Cinema, teatro e televisão estão muito próximos no longa-metragem O Auto da Compadecida, dirigido por Guel Arraes, que fez ontem à noite a sua pré-estréia em Curitiba. Na telona, muitas cenas lembram as sequências televisivas, enquanto outras têm a dramaticidade típica dos palcos. Hoje, o filme será apresentado em Londrina e na sexta-feira entrará em circuito comercial no Paraná.
A simples e engraçadíssima história de Ariano Suassuna, agora adaptada para o cinema, aborda com inteligência e sutileza as fraquezas humanas. Assim como na sociedade real, os personagens da trama são corrompidos pelo poder e pelo dinheiro, traem e mentem, tudo em nome da eterna luta pela sobrevivência.
O imaginário religioso popular também é explorado. Na sequência que deu o título da história de Ariano Suassuna, céu, inferno e purgatório são retratados com naturalidade. Depois de um assassinato coletivo promovido pelos cangaceiros, a maioria dos personagens passa por um julgamento comandado por Nossa Senhora (Fernanda Montenegro), Jesus Cristo (Maurício Gonçalves) e pelo próprio diabo, brilhantemente interpretado pelo curitibano Luís Melo.
Todo o elenco, aliás, merece ser citado. Além dos protagonistas João Grilo e Chicó, muito bem representados por Matheus Nachtergaele e Selton Melo, outros atores valem o preço do ingresso.
Marco Nanini, como o cangaceiro Severino, e Denise Fraga, como a adúltera mulher do padeiro, estão no topo dessa lista. O ator Paulo Goulart, como o poderoso major Antônio Morais, e Rogério Cardoso, como o corrupto padre, também são pontos altos no filme.
Embora algumas cenas sejam muito longas, o que denuncia a longa convivência do diretor com a telinha e a sua iniciante trajetória no cinema, o resultado final não fica comprometido. Assim como nas montagens anteriores de O Auto da Compadecida, para teatro e TV, o filme tem tudo para ser mais um grande sucesso.


