Linguagem é tão ou mais importante que o conteúdo, diz Sant´Anna
A crítica de cunho politico-social é um elemento fortemente presente em suas narrativas. Qual a sua fórmula para não transformar literatura em sociologia?
A linguagem. Normalmente, não defendo teses sociológicas que facilitem o entendimento de quem está lendo. Em tudo o que escrevo, a linguagem é tão ou mais importante que o conteúdo. Não entrego pensamentos fechados, mas tento fazer com que o leitor formule suas próprias ideias a partir do que escrevo.
Seu mais recente livro, "O Brasil é Bom", tem sido considerado por alguns críticos como um ataque feroz ao conservadorismo que tem se manifestado de várias formas e nos mais diversos setores. Você acredita que o pensamento reacionário é hegemônico no País ou está, na verdade, supervalorizado por obter mais repercussão na mídia?
Acho que vivemos um momento de grande reacionarismo no Brasil. Quer dizer, um momento em que a burrice veste os trajes da informação, da certeza e até mesmo da inteligência. Está acontecendo o desmoronamento da ideia de que o Brasil resolveu seus problemas econômicos e sociais. Fizeram-nos acreditar que agora o Brasil estava pronto para se tornar uma grande potência, mas, como o desenvolvimento humano não acompanhou o suposto crescimento econômico, estamos caminhando para um abismo.
Você trabalha há muitos anos como redator publicitário, não? Essa atividade favorece ou atrapalha a escrita literária?
Favorece quando tenho a oportunidade de ganhar a vida sem precisar fazer da literatura um produto para ganhar dinheiro. E complica, porque estou sempre preocupado em pagar as contas e, para isso, perco muito tempo. E, claro, o mundo do "marketing" me fornece imenso material para os meus livros.
Nos anos 80, você fez parte da banda carioca Tal e Qual. E hoje em dia apresenta o show "Sons e Furyas", no qual mostra seu lado musical. Como é esse espetáculo?
É o tal espetáculo multimídia. Misturamos música, literatura e teatro. Nele, lemos textos, fazemos números performáticos e cantamos músicas de amor. É um show "muito louco experimental transgressor de vanguarda", embora esta definição seja apenas uma piada.
Há décadas, constata-se um modesto círculo de leitores de livros no Brasil proporcionalmente à sua taxa populacional. Se o Ministério da Cultura lhe pedisse sugestões para aumentar os índices de leitura no País, que medidas você recomendaria?
O Ministério da Cultura, em vez de ficar preocupado com esses programas de incentivo à cultura, que acabam beneficiando apenas o mainstream, devia estar preocupado em desenvolver políticas civilizatórias para o povo brasileiro. Criar política que facilitasse, à população, a compreensão dos fatos políticos, estéticos e sociais. (N.S.)





