''Sombrio, triste, funesto, melancólico, perigoso, sem esperança, sujo, emporcalhado...''. Incomodada com essas definições atribuídas às palavras 'negro' ou 'preto' encontradas em dicionários brasileiros, a professora de Sociologia, Silvia Motta, de Rolândia, decidiu elaborar um estudo dirigido ao Ministério de Educação (MEC) pedindo a retirada dessas conceituações. O documento deverá ser encaminhado até o final de dezembro e o título provisório é ''Discriminação Dissimulada - História, Linguagem e Preconceito''.
Silvia, que foi secretária de Cultura de Rolândia - e responsável pela iniciativa de homenagear pioneiros negros da cidade na típica Festa das Nações local -, defende que vivemos no Brasil uma ''discriminação velada e o mito da democracia racial''.
Para a realização da pesquisa, a professora conta que consultou 40 dicionários e que apenas em dois não encontrou definições pejorativas. ''Normalmente, a definição começa dando descrições do grupo étnico, mas logo depois vem com uma série de desqualificações. Os conceitos não nascem de forma ingênua. Há um peso político e histórico que não pode ser desconsiderado, principalmente pelos educadores'', destacou a educadora, que também pontuou ser comum referências depreciativas em dicionários aos ciganos e judeus.
Um outro detalhe que chama a atenção da pesquisa de Silvia é que ela fez questão de consultar apenas edições dos dicionários realizadas após a lei 10.639/2003 - que exige a obrigatoriedade do ensino de história e cultura africana e afrobrasileira, desde a Educação Infantil, nas disciplinas de Literatura, Artes e História, embora os novos temas tenham liberdade para serem abordados de forma interdisciplinar.
Silvia, que também integra o projeto ''Educação Africanidades'', desenvolvido em todo o País pela Universidade de Brasília, disse que o quadro que se vê é ainda de muito despreparo dos professores para lidar com a questão do racismo e da cultura africana. ''Um dos pontos mais polêmicos é o aspecto da religiosidade de origem afro. Tanto por parte dos professores quanto dos alunos há conflitos morais. Isso demonstra um alto grau de desinformação cultural sobre a religião afro e os deuses africanos. Se perguntarmos quem é Zeus (deus grego) todo mundo sabe'', afirmou.
A força semântica das palavras pode ser percebida, por exemplo, nos Estados Unidos, onde o termo ''negro'' - antes adotado pelo inglês para designar especificamente o africano escravizado -, nos anos 60, com a recuperação do orgulho racial nos EUA, foi considerado pejorativo, sendo substituído definitivamente por ''black''.
O doutor em Filologia e Língua Portuguesa, João Francisco Gonsalez, atesta que a origem da palavra ''negro'' é latina e que desde o início da sua utilização vem com uma carga negativa, já que foi designada pelo ''homem branco'' - na função de explorador - em relação ao negro escravizado. ''É preciso fazer uma análise genealógica profunda dessa palavra, que por si só dá uma tese de mestrado, mas, no que há de mais apurado no que se refere à língua latina, verificam-se os conceitos semânticos de 'fúnebre', 'sombrio', 'tenebroso', 'mau agouro' e 'melancólico' para a palavra negro, o que não deixa de ser uma expressão de preconceito racial, que precisa ser combatido'', argumentou.

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