À sombra das maiorias barulhentas, do atropelo de tantas imagens e das histerias mediáticas, enfim foi possível reencontrar ontem no festival um cinema de pura emoção. Agora são duas as lições de sensibilidade, a de Pedro Almodóvar, que permanece acima do bem e do mal, e esta mais do que surpreendente participação de David Linch na mostra competitiva, com o filme ‘‘The Straight Story’’. Faltando conferir hoje e amanhã os últimos três concorrentes, entre eles o sempre desconcertante Peter Greenaway (exibido ontem à noite), é possível concluir que o júri presidido por David Cronenberg vai trabalhar duro e dobrado no fim de semana. E se ‘‘Todo Sobre Mi Madre’’ permanecia nas últimas horas ainda no topo das listas da imprensa, este favoritismo passou a ser assombrado por algumas notícias de bastidores, dando conta da recuperação do prestígio de alguns azarões. Na programação de hoje, o americano ‘‘Limbo’’, de John Sayles, e o belga ‘‘Rosetta’’, dos irmãos Luc e Jean-Pierre Dardenne, fecham a seção competitiva. A registrar a decepção provocada pelo mais velho dos diretores ainda em atividade, o português Manoel de Oliveira. Seu filme ‘‘A Carta’’ é acadêmico, literário, pesado, artificial. Vale pela presença de Chiara Mastroianni, cuja beleza afinal amadureceu.
Não há cinéfilo que desconheça o cinema de David Lynch. Peculiar, ou mais precisamente, bizarro, surreal, atormentado. Suas marcas registradas desde ‘‘Eraserhead/Labyrinth Man’’, passando por ‘‘O Homem Elefante’’, ‘‘Duna’’, ‘‘Veludo Azul’’, ‘‘Wild at at Heart’’ (Palma de Ouro em 92) e ‘‘Twin Peaks: Fire Walk With Me’’, até chegar a ‘‘Lost Highway’’, o diretor construiu um arrepiante caminho sempre em busca do lado escuro da natureza humana, de preferência localizado na contramão da América opulenta e feliz. É de estranhar muito, portanto, esta manobra em sua carreira idem.
‘‘The Straight Story’’ é exatamente o que parece ser. Ou o que sempre foi, desde sempre. Baseado num fato incomum da vida real, ocorrido em 1994 e somente divulgado posteriormente pelo ‘‘New York Times’’, o novo filme de Lynch é a história de dois irmãos, já velhos. Eles não se falam há mais de 10 anos, quando tiveram vários desentendimentos. Moram em Estados diferentes. Um deles, Alvin Straight, sofre uma queda, e enquanto se recupera fica sabendo que o outro, Lyle, teve problemas ainda mais sérios. Preocupado com a saúde do irmão, e disposto a buscar a reconciliação, Alvin decide empreender sozinho uma viagem de cerca de 500 quilômetros, desde sua casa em Laurens, Iowa, até Mount Zion, Wisconsin. Sem poder pagar pelo transporte em ônibus, aos 73 anos incapaz de enxergar o suficiente para dirigir e muito orgulhoso para aceitar carona de qualquer espécie, com a ajuda da filha ele ajeita seu velho trator John Deere, modelo 66, prepara um pequeno trailer com suprimentos e cai na estrada.
Ao longo de quase dois meses, com sol ou chuva, Alvin - carinhosamente interpretado por Richard Farnsworth, potencial melhor ator do Festival - percorre antigas trilhas pouco habitadas do meio-oeste americano, dorme ao relento à beira do fogo, vigia o céu noturno, medita e reflete, sua figura recortada contra um pano de fundo de extensos milharais e árvores com as folhas tingidas pelas cores do outono. Ele cruza o caminho com diversas pessoas dos lugares quase anônimos por onde passa; na medida do possível elas prestam algum tipo de ajuda, como consertar o velho tratorzinho danificado pelo esforço e desgaste, oferecer um prato de comida ou a companhia simples da conversa ao pé da fogueira. No destino final lá está Lyle - Harry Dean Stanton, que Cannes conhece tão bem desde ‘‘Paris Texas’’ - numa cena única e comovente. Sem dizer quase nada um ao outro, os dois sentam-se na varanda e se põem a ver estrelas.
‘‘É um épico a 4 milhas por hora’’, brinca durante a coletiva um David Lynch satisfeito com a amigável recepção ao filme. Sobre o que ‘‘The Straight Story’’ representa para ele, a resposta não deixa de provocar sorrisos irônicos: ‘‘É o fenômeno do perdão.’’
Uma das maiores virtudes do filme, e talvez a maior delas, é que ele transpira autenticidade. Não poderia haver mudança mais saudável para Lynch do que afastar os sets falsamente suburbanos, construídos nos labirintos retorcidos de sua imaginação. Uma vez livre da ‘‘dementia americana’’, dos fantasmas de Laura Palmer e de Saylor e Lula, nada como mergulhar na limpidez do olhar azul de Alvin em busca do perdão fraterno. Não há nenhum dúvida de que o título escolhido por Lynch, ‘‘The Straight Story’’ tem dois níveis de leitura, embora ele não admita: o sobrenome real do herói, Straight, e os dois sentidos que a palavra assume em inglês, a história verdadeira e a história ‘‘reta’’, ‘‘direta’’, por oposição às suas ficções algo tortuosas.

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