Limites em xeque
PUBLICAÇÃO
domingo, 18 de junho de 2000
Ranulfo Pedreiro De Londrina 
A proximidade entre popular e erudito vai além do que os rótulos podem indicar. O flerte é antigo na música brasileira e vem ganhando um traçado tão tênue que há quem desconsidere os limites. Sobre a Paixão, disco que a cantora Regina Machado está lançando pela Dabliú, reafirma a fusão ao incluir no repertório quadras musicadas por Guerra Peixe, lieder de Schumann e canções de Chico Buarque e Caetano Veloso.
A fórmula ganha consistência nos arranjos de Mário Manga. Com um quarteto de cordas, Manga alinhou o repertório e evitou sobressaltos. O resultado traz características de música de câmara, mas pode agradar tanto quem gosta de canto lírico quanto quem prefere MPB. A voz firme e clara de Regina Machado arremata a costura de um disco que cresce a cada audição.
O tom é hermético e intimista, quase sempre apoiado na relação entre voz e quarteto de cordas dois violinos, viola e cello. Mas há surpresas, como o violão de Ítalo Perón em Du Bist Wie Eine Blume, de Schumann e Heine, além de boas composições de Regina Machado algumas em parceria com Silvia Ferreira.
Eu fiquei com medo de que houvesse uma disparidade, meu objetivo era uma sonoridade contínua. O Mário Manga captou e fez os arranjos. O trabalho no estúdio foi lento, fizemos com calma, ouvindo cada faixa e tendo tempo para avaliar, comenta Regina Machado, em entrevista por telefone.
A falta de pressa se reflete no apuro do CD. Os arranjos privilegiam cada faixa particularmente e, ao mesmo tempo, formam uma ponte entre elas. Além do quarteto de cordas, há ainda percussão e violão. No centro, encaixa-se a voz de Regina Machado, com técnica de canto lírico e uma precisão natural, que parece se acomodar entre graves e agudos, com trânsito entre ambos.
O disco abre com Olha que a Lua está Tão Clara (Guerra Peixe/Guilherme Neves) e segue com Cântico (Regina Machado). O repertório traz ainda Ich Will Meine Seele Tauchen (Schumann/Heine), Este Amor (Caetano Veloso), Del Cabello Más Sutil (Fernando Obradors), Uma Menina (Chico Buarque) e Voz (Regina Machado/Silvia Ferreira), entre outras. São 11 músicas no total, volume que não entope os ouvidos e interrompe o CD no tempo certo.
A repercussão tem sido muito boa, as pessoas têm sido tocadas pela beleza e pela emotividade das canções. O mercado fonográfico no Brasil e as diversas mídias têm ocupado o espaço massacrando nossos ouvidos, tem muita coisa ruim tocando e as pessoas estão saturadas, completa.
A cantora pretende mostrar seu trabalho fora de São Paulo, e está agendando vários shows. Existe a possibilidade de se apresentar em Florianópolis e Londrina. Enquanto isso, ela se volta, sem pressa, para o próximo trabalho. Ainda é cedo para adiantar algo, mas basicamente a idéia é manter a identidade, assegura. Regina Machado não brinca em serviço.


