Líder da extinta banda Fellini lança "Eurosambas - 1992-1998"
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 12 de janeiro de 2000
Por Jotabê Medeiros 
São Paulo, 12 (AE) - Thomas Pappon é paulistano de ascendência alemã, vive em Londres e gosta de rock europeu, mas também dos sons antropológicos do Quinteto Armorial, de Pernambuco. Thomas Pappon é um típico cidadão do mundo da nova ordem global e, se alguém tem dúvida, que ouça "The Gilbertos"
o projeto-banda-de-um-homem-só que ele nos faz chegar agora, diretamente de seu refúgio intercontinental. "Eurosambas 1992-1998" (selo Midsummer Madness) é algo que chega para nos mostrar que um monte de rótulos que as pessoas vêm tentando vender-nos como "novas" (new bossa, acid samba, fuzzy bossa, tecnosamba) não são nem um pouco. O próprio Pappon já engendrava tudo isso nos anos de 1984 a 1991, quando encabeçava (com Cadão Volpato e Jair Marcos) a mitológica banda Fellini.
"The Gilbertos têm tudo a ver com Fellini, é meio que uma continuação", conta Pappon, jornalista na BBC de Londres e hoje colaborador do jornal "O Estado de S.Paulo". "Tem aquela mesma coisa caseira de equipamento, tecladinho vagabundo e a sonoridade", diz o músico. "The Gilbertos", o nome do projeto paralelo de Pappon, não é uma homenagem a João Gilberto, mas apenas uma ilação de oportunidade, afirma Pappon. "Na verdade, trata-se mais de uma referência até meio irônica aos afro-sambas que Baden Powell e Vinícius criaram", diz Pappon. "A bossa nova e o samba estão presentes, mas de forma abstrata", afirma.
Pappon não vive uma fase de criação compulsiva. Já foi um militante da música, mas hoje é mais um diletante. Há um ano não compõe nada, ocupado com a família e a profissão jornalística. Os "eurosambas" que compõem esse disquinho antológico foram produzidos entre 1992 e 1998, como diz o título. Pappon morou oito meses em Frankfurt e quatro anos em Colônia, na Alemanha. Ali, voltou a fazer experiências musicais num estúdio caseiro. Ainda na primeira metade dos anos 90 ele se rendeu ao sampler. "Eurosambas" contém samples de Jimmy Scott, Patricia Bartoli-Dau, Cinqui So, Arvo Part e o Quinteto Armorial. Quem assina a assessoria técnica é um certo Akira van der S (outro mito do rock alternativo dos anos 80, o guitarrista e piloto de teclados Akira Tsukimoto, da banda Akira S e As Garotas que Erraram).
No Fellini, a outra banda de Pappon, quem cantava era principalmente Cadão Volpato. Aqui, a voz grave de Pappon tem contraponto nos backing vocals de Karla Pappon, mulher do compositor. Ele está tremendamente bem-humorado em faixas como "Les Trois Maries", na qual rima "Mãe Menininha do Gantois com le cine noir". E é puro avant jazz em "Everywhere", coisa que se aproxima tremendamente de Medeski, Martin & Wood.
Na canção do exílio "Erundina Song" ele fala de suas últimas impressões de uma cidade que já deixou há algum tempo, São Paulo. É a que mais lembra o Fellini. "Quando eu fui para a Europa, sabia que nunca ia conseguir formar uma banda, porque para mim uma banda é uma espécie de irmandade", confessa. Não achou outros "irmãos de sangue" no caminho. "Eu sabia que a música só ia funcionar de novo para mim se eu fizesse sozinho e foi o que aconteceu". O músico chegou a mandar fitas demos para gravadoras européias e tinha intenção, no início, de agarrar-se à música como atividade principal. Não deu. Suas músicas chegaram a tocar razoavelmente bem numa rádio de Frankfurt, mas Pappon acabou assumindo outro papel profissional.
Ao lado dos novos discos de Jupiter Apple e Flu, dois gaúchos psicodélicos e modernos, "Eurosambas" é o disco mais bacana desse começo e fim de alguma coisa. Thomas Pappon mostra que ainda é uma das antenas do rock nacional, apesar do exílio. Pessoalmente, ouve umas coisas incomuns: a banda californiana Moby Grape, os primeiros discos do Soft Machine, Beta Band, Pavement (embora deteste seu trabalho mais recente) e os franceses do Air. "The Gilbertos" mostra o que acontece quando a intenção não é copiar o pop internacional, mas contaminá-lo.


