LIÇÕES LITERÁRIAS - Um presidente que lê
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 30 de janeiro de 2009
Antonio Gonçalves Filho<br> Agência Estado 
Não é surpresa que o livro preferido do presidente americano Barack Obama seja ''Moby Dick'', história de um marinheiro de nome bíblico, Ishmael, que parte dos Estados Unidos rumo ao Pacífico Sul junto à tripulação multiétnica de um baleeiro. É uma grande metáfora da viagem que Obama começa a empreender para cumprir a promessa feita aos americanos no dia de sua posse, a de que vai recolocar os EUA na posição de líder mundial e guia das nações. Para quem não se lembra do épico de Herman Melville (1819-1891), de dimensões shakespearianas, ''Moby Dick'' trata da luta do capitão Ahab contra um monstruoso cachalote branco, história perfeita para identificar o romance com o espírito de pioneirismo dos americanos.
Quem ainda não leu, está correndo às livrarias para comprar seu exemplar. O clássico voltou às livrarias não só nos EUA como no Brasil. A editora Cosac Naify, que lançou a versão integral de ''Moby Dick'' em abril do ano passado (em nova tradução de Irene Hirsch e Alexandre Barbosa de Souza), não está dando conta dos pedidos de reposição das livrarias (isso apesar das 656 páginas e do preço salgado, R$ 99).
Talvez não seja preciso enfatizar que o principal personagem do livro, o capitão Ahab, consagra o arpão que deve matar Moby Dick com o nome de três pagãos num ritual satânico. Obama, ao contrário, é um homem de fé, que coloca entre seus livros preferidos a Bíblia, embora não resista às tragédias de Shakespeare, entre as quais destaca ''Macbeth''.
Nela, as bruxas são representações simbólicas do demônio que vive dentro do ambicioso monarca. Obama, ao que se saiba, não é atraído pela demonologia, mas leu todos os livros de Harry Potter, o que o coloca sob suspeita, pelo menos dos fanáticos religiosos que quiseram queimar os livros da escritora britânica J. K. Rowling como obras do demônio.
As leituras de Obama parecem revelar um homem que, acima de tudo, preza a questão de identidade, a iniciativa individual, o esforço coletivo, a reconciliação com as raízes culturais, a construção do ''self'', o respeito à diversidade sexual e a transcendência. Quando ainda estava em campanha, Obama divulgou uma lista de livros preferidos em que esses temas estão presentes, tanto nas obras do hoje esquecido militante americano James Baldwin (1924-1987) como nos romances da escritora britânica (nascida em Kermanshah, Irã) Doris Lessing e da americana Toni Morrison, ambas premiadas com o Nobel. Baldwin (cujo ''Giovanni'' foi relançado pela Novo Século) foi um dos primeiros americanos a tratar, ao lado do poeta Langston Hughes (outro preferido de Obama) , de questões relacionadas à discriminação sexual (ambos eram homossexuais) e segregação racial (ambos eram negros).
Como se vê, a barca de Obama não é o baleeiro Pequod de ''Moby Dick'', mas nele cabem todas as raças, tribos, credos e sexos. O presidente usa o que pode dos livros e não é segredo que formou seu heterodoxo gabinete após ler a biografia que a historiadora Doris Kearns Goodwin escreveu sobre Lincoln, ''Team of Rivals'' (''Time de Rivais'') - um volumoso estudo sobre como o histórico presidente escolheu três oponentes como secretários de Estado. E o que dizer do livro de Toni Morrison que Obama mais gosta, ''Song of Solomon'' (''Canção de Salomão'') senão que se trata de uma odisseia em busca das raízes negras de um homem criado no seio de uma família rica do Michigan e absolutamente alheia à luta pelos direitos civis dos negros ?
Por fim, outro preferido de Obama, ''O Carnê Dourado'', de Doris Lessing, trata de outros temas igualmente sérios: a desconfiança gerada pela Guerra Fria, a solidão da mulher depois do feminismo, a desilusão com as ideologias e o perigo de um conflito nuclear. Doris Lessing já sabia das coisas em 1961. Será que Obama aprendeu a lição?
Os dez mais do líder
- MOBY DICK: Hermann Melville conta a perseguição a uma baleia por um monomaníaco capitão
- GILEAD: Marilynne Robinson narra a história de um pastor que escreve carta ao filho sobre amor e amizade
- ENSAIOS: Ralph Waldo Emerson fala de autoconfiança
- TRAGÉDIAS: As de Shakespeare são as que o presidente mais gosta
- BÍBLIA: Fonte de inspiração para vários discursos
- HEMINGWAY: O favorito é 'Por Quem os Sinos Dobram?', sobre brigadista perito em explosivos
- DORIS LESSING: 'O Carnê Dourado', sobre escritora que conta suas memórias
- TONI MORRISON: 'A Canção de Salomão', trata da consciência de um negro
- GRAHAM GREENE: 'O Poder e a Glória' relata o calvário de um padre de aldeia caçado no México
- LINCOLN: Modelo absoluto, tanto os discursos como o líder


