No amor e na guerra já disseram que vale tudo, mas se manter sobre os saltos num emprego em que a chefia não admite um plano ''B'' também é uma questão de sobrevivência.
O filme de David Frankel sobre o 'backstage' da moda ''O Diabo Veste Prada'' (The Devil Wears Prada), em cartaz no Multiplex Catuaí, em Londrina, e outras salas do País, é só um retrato com cores fortes de 'workaholicks' que estão à solta por aí.
Eles podem se vestir com saias ou um terno que, necessariamente não precisa ter um corte perfeito, mas são capazes de dentro ou fora das passarelas transformar a vida de um subalterno num 'training' para o inferno. Tudo em nome da efiência e do sucesso profissional.
Na trama baseada no 'best-seller' homônimo de Lauren Weisbeger, a jornalista recém-formada que trabalhou durante um ano com a toda-poderosa editora da Vogue americana, Anna Wintour, consegue se livrar desse purgatório, mandando a chefe às favas e - ainda por cima - conseguindo tirar proveito da situação ao escrever o romance, que no cinema está atraindo mais espectadores que ''As Torres Gêmeas'' do diretor Oliver Stone.
Para quem é do mundo da moda só ouvir nomes como o de Wintour já é o suficiente para sentir um arrepio na espinha. Na ficção, a editora se transformou em Miranda numa intepretação minimalista de Meryl Streep.
Ao se livrar de ser atirada às modelos - brincadeira que Nigel (Stanley Tucci), o puxa-saco de Miranda faz em uma cena, ilustrando a guerra de vaidades devastadora e que pode transformar um homem franzino em apenas um ego enorme - a personagem Andy Sachs (Anne Hathaway) tem condições de dar algumas lições de sobrevivência, que dois designers de moda londrinenses aceitaram comentar.
Em Londrina para acompanhar a produção da sua nova coleção, a designer Soraya Hanna Ayoub Franzon - da grife Pura Mania e que mora atualmente em Nova York, onde assistiu ao filme - aceitou o convite da Folha para rever a comédia.
Rodrigo Tanaka, consultor de moda e professor do curso de Design de Moda da Universidade Estadual de Londrina (UEL), também participou da sessão pipoca.
Os dois concordam com uma afirmação brilhante como neon no filme: a de que moda não é utilidade, mas que para estar em terceiro lugar no ranking do Produto Interno Bruto (PIB), o segmento só pode ser considerado fundamental.
''Eu vivo moda 24 horas por dia. A gente não tira férias e nem acaba de fazer uma coleção já está pensando em outra. Trabalhamos com prazos, lutando contra o tempo. É uma atividade que gera muito emprego e na qual qualquer erro é fatal'', comenta Soraya, que já se prepara para voltar para Nova York, onde faz as pesquisas para as coleções da empresa.
Tanaka acredita que ''O Diabo Veste Prada'' é um dos poucos filmes sobre moda que não faz uma caricatura dessa indústria em que os designers aparecem como sujeitos afetados. Ele compartilha da opinião de Soraya que afirma que apenas dois por cento no mundo fashion é glamour e o restante suor e trabalho.
Assistindo à comédia pela terceira vez, Tanaka diz que uma das cenas que mais gosta é quando Miranda comenta sobre essa indústria. Ao se deparar com a nova assistente Andy metida numa blusa azul e botas contrastando com o conjunto da obra, a cruel editora dispara que não tem como ser indiferente à moda se até mesmo a falta de bom-gosto da moça sofreu influência de alguma tendência.
''É só o glamour que aparece, mas os nossos bastidores são mais difíceis. A minha família sempre me pergunta se para fazer roupa é tão complicado assim'', compara Rodrigo.
Mexendo algumas linhas e agulhas, Miranda consegue colocar em seus devidos lugares seus desafetos. Mas apesar de considerar a existência da inveja, os designers acreditam que a competitividade na indústria da moda é uma aliada no desenvolvimento de tecnologias. ''Porém, hoje em dia tem muitos estilistas que acreditam que são celebridades'', destaca Soraya ao que Rodrigo acrescenta que um atributo indispensável, mais do que saber lidar com a vaidade, é ser sensível ao que as pessoas querem consumir. ''A gente não vende roupa. A gente vende emoção'', complementa ainda Soraya.
Na produção do filme sobre moda e que teve um orçamento ínfimo para os figurinos, sendo que a equipe teve que correr atrás dos bambambans da alta-costura para que cedessem algumas peças, a lição que fica é saber lidar com situações que apertam o calo ainda que num sapato de grife.
O designer londrinense lembra que a primeira vez em que enfrentou o sonho de meninas de 13 anos numa seleção para um desfile, tendo que escolher apenas algumas, sentiu-se num açougue escolhendo carne : ''A pressão é grande e hoje as meninas são treinadas para aguentar esse tipo de coisa. Tanto que as brasileiras são as que melhor se adaptam lá fora. Um exemplo disso no filme é o da assistente da Miranda, que se segurou como pôde no emprego'', afirma Rodrigo.
Ao contrário do que alguns acreditam - e que na comédia acaba sendo verbalizado na afirmação de Nigel ao dizer que a publicação ''Runway'' é um facho brilhante de esperança e não uma revista - Soraya não se considera artista. ''Não acho que estilista é artista, é como qualquer outro profissional. A diferança é que o artista não precisa vender a sua obra. Mas para nós a venda vai influenciar a próxima coleção. Enquanto você faz só uma peça pode até ser uma obra de arte, já uma coleção demanda um volume de dinheiro muito grande'', diz. A própria Soraya faz outra comparação ao explicar o que significa o mundo da alta-costura: ''Apesar da competição, trabalhar com alta-costura pode ser mais fácil, já que você tem todo o dinheiro do mundo'', ressalta.
Porém, os que não sobrevivem desse sonho e que têm a sua frente uma Miranda de saia ou terno não precisam vender a alma ao deixarem o cinema. ''Existe algo mais que eu possa fazer'', perguntou a personagem Andy Sachs à Miranda, que respondeu: ''Faça o seu trabalho. Isso é tudo''.

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