Lições de sexo com Woody Allen
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 10 de setembro de 1998
Carlos Eduardo Lourenço Jorge Enviado especial a Veneza 
Celebrity é um filme sobre o fenômeno da fama, que nos Estados Unidos vem tomando proporções alarmantes e histéricas. É difícil imaginar que nestes tempos uma pessoa possa se tornar famosa no mundo inteiro por ter feito sexo oral com o presidente, disse o diretor, com um misto de inocência e sarcasmo a propósito da estréia mundial de sua mais recente comédia, fora de concurso, que aconteceu quarta-feira na mais concorrida sessão para a imprensa que cobre esta 55ª Mostra Internacional de Arte Cinematográfica de Veneza. A definição de Allen consta do press release distribuído aos jornalistas, já que ele não se está por aqui - pelo menos não visível. São conhecidas de todos sua derramada afeição por Veneza, onde inclusive já realizou um filme-declaração, Todos Dizem Eu te Amo, e a crônica aversão por festivais em geral - atitude que de resto, e por absoluto contraste, lhe confere intocada autoridade para falar sobre as mais variadas formas de celebridade.
Neste seu 30º filme, Woody Allen e um elenco de exceção - de Kenneth Branagh a Melanie Griffith (os dois únicos que estão em Veneza e estavam na coletiva), de Joe Mantegna a Judy Davis, de Winona Ryder a Leonardo DiCaprio - se propõem narrar as (poucas) alegrias e os (muitos) infortúnios agregados à notoriedade. É um fardo circunstancialmente a ele mesmo imposto (vide a ruidosa separação de Mia Farrow), mas que o cineasta vem administrando da maneira mais elegante e discreta que a mídia mundial e a Justiça americana permitem. Em Celebrity, o ponto de partida é território sagrado para o diretor: as vicissitudes de um jornalista e aspirante a escritor, Lee Simon (Branagh), quarentão neurótico, inseguro, e da mulher de quem acaba de se separar, Robin (Judy Davis), também ela quarentona, neurótica, insegura. É através desses dois personagens que o espectador encontra a fama em todas as suas nuances, desde aquela celebrada em nível nacional até uma outra, um pouco mais reservada.
Como de hábito - e esta é sempre uma expressão empobrecedora para qualquer filme de Allen - há diálogos em quantidade suficiente para definir um bom percentual como primorosos. E as situações-sketch mantêm exatamente aquele admirável timing de comédia que o diretor sabe manejar como poucos.
Por conta de Monica e Bill, Lewinski e Clinton, respectivamente, 1998 corre o risco de ser lembrado, na crônica dos costumes sexuais, como o ano do fellatio. Ou sexo oral, em bom português como convém à explicitude semântica. Ou pompido, como se aprende em italiano corrente. No decepcionante filme de Abel Ferrara visto aqui em concurso, New Rose Hotel, a italiana Asia Argento não fala e não faz outra coisa. Mas a contribuição de Woody Allen para o assunto é ao mesmo tempo vulgar, cruel, inventiva, hilariante e definitiva. Em busca de um relacionamento sexual e afetivo mais abrangente com o namorado, o personagem de Judy Davis vai se aconselhar com uma profissional de reconhecida competência. A demanda é pelo sexo oral, e a lição parte da indefectível banana, que afinal é o objeto a ser eroticamente sacrificado.
Há uma equação resolvida insatisfatoriamente por Allen. E se trata do próprio Allen, em pessoa. Aos 63 anos, o diretor não tem mais phisique du role para encarnar seus tipos na meia-idade, ou melhor, para encarnar a si mesmo. O alter ego escolhido em Celebrity ganhou as feições de Kenneth Branagh. Mas ganhou de quebra a expressão sempre atônica e divertida de Allen, seus trejeitos, suas pausas nervosas, suas hesitações. O problema é que, por mais aplicado que se mostre o ator inglês, o filme se ressente da ausência de Allen, embora haja quem tenha gostado da troca. Judie Davis, embora afinadíssima, faz a parte que por tradicão sempre coube com todas as honras a Dine Keaton. O prejuízo aqui é menor.
Leonardo DiCaprio tem uma participação decisiva como um novo divo espancando a namorada e a fama. Há quem antecipe que seus 12 tempestuosos minutos em cena serão seus próximos 12 anos nos bastidores da glória.
Do ponto de vista estilístico, Celebrity é outra incursão contra a corrente. No momento de máximo incremento dos efeitos especiais, o filme oferece um franciscano preto-e-branco sem nenuma razão aparente. O próprio diretor justifica e sepulta quaquer especulação estética: Não há nenhuma motivação especial para o preto-e-branco. Filmei assim porque me agrada muito, e porque cresci vendo este tipo de filme. E os grandes produtores de Hollywood continuam a ignorá-lo, o atores mais bem pagos se oferecem a baixo custo e fazem fila para qualquer pequena participação em seus filmes.


