Só falta conferir a elogiada composição de Will Smith em ‘‘Ali’’, cinebiografia dirigida por Michael Mann com estréia prevista somente para depois da festa do 74ºOscar, que acontece no fim de noite deste domingo. Três dos cinco nominados para melhor ator já estão nas salas brasileiras (Denzel Washington, Tom Wilkinson e Russel Crowe), e a eles se junta agora Sean Penn, a partir de hoje no circuito nacional em ‘‘Uma Lição de Amor’’ (veja a programação de cinema na página 2).
‘‘I Am Sam’’ pertence a uma tradicional linhagem de filmes hollywoodianos com desenho sentimental infalível para provocar alguma comoção, suscitar alguma polêmica e reivindicar algum status como uma espécie bem conhecida de filme-protesto, pleiteando ainda alguma notoriedade por conta da interpretação de personagem com ‘‘handicap’’ em busca de compreensão, aceitação e justiça, acima de tudo. Por isso, e como quase sempre ocorre nesses casos, o filme vem embalado pelas melhores intenções que acabam predominando em detrimento de melhores resultados.
Sam (Sean Penn) é um pai solteiro - a mãe sumiu no mundo após dar à luz - mentalmente retardado mas com um coração imenso para cuidar da filha Lucy (Dakota Fanning, angelical), nome dado em homenagem ao clássico ‘‘Lucy in the Sky With Diamonds’’, dos Beatles. Com personalidade radiante, o pai trabalha como ajudante de garçom, tem um círculo de amigos normais e uma vizinha pianista e sempre em casa por conta de uma ágorafobia. É ela quem mantém sempre um olho em Lucy, embora o amor incondicional e as circunstâncias do momento façam de Sam um pai exemplar. O QI dele é de uma criança de 7 anos, e isto fica evidente quando a menina ultrapassa esta idade e a própria capacidade mental do pai, superando seu limitado intelecto. Neste meio tempo, Sam é preso, injustamente acusado de assediar uma prostituta. A acusação é retirada, mas uma assistente social, Margaret (Loreta Levine), observa as limitações de Sam e logo conclui que ele é incapaz como pai e tutor de Lucy.
Reminiscente de ‘‘Kramer versus Kramer’’ e ‘‘Rain Man’’, este melodrama tenta se sustentar na batalha legal entre a advogada de Sam, Rita Harrison (Michelle Pfeifer, estonteante mesmo engessada em personagem-clichê), e os insensíveis assistentes sociais determinados a ficar com a custódia da menina. Essas autoridades podem ser perfeitamente razoáveis para a maioria de nós, mas não para o diretor Jessie Nelson e sua co-roteirista Kristine Johnson, que ignoram consequências sociais e emocionais em favor de respostas fáceis, olhos marejados e lenços ensopados. E finalmente ‘‘Uma Lição de Amor’’ não se dá conta de sua premissa arbitrária, de resto base da chantagem sentimental: embora Sam tenha cientificamente comprovado um QI de alguém de 7 anos, a ele deve ser entregue a responsabilidade pelos cuidados da filha. Não importa que as evidências sejam todas em contrário.
O Sam de Sean Penn se inscreve na extensa galeria de personagens compostos com espalhafato, obviamente com o objetivo de atrair a atenção do Oscar. A Academia tanto gosta que este ano são dois ‘‘excepcionais’’ a disputar a estatueta. Mas entre Russel Crowe e Penn, o prêmio estaria melhor entregue a Denzel Washington como o policial corrupto de ‘‘Dia de Treinamento’’ ou a Tom Wilkinson como o pai destroçado de ‘‘Entre Quatro Paredes’’.

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