LIção de autenticidade
A coisa já vinha dos pais, cantadores do interior do Triângulo Mineiro. Foi só questão de tempo para que os irmãos José e Ranulfo Ramiro começassem a arranhar o cavaquinho, depois o violão e a viola. Da roça, a dupla se deslocava até a cidade para cantar em programas de rádio.
O reconhecimento demorou. Os anos passaram, e a profissionalização não chegava porque a dupla não conseguia espaço para gravar. Até que, em 1980, auxiliados por Roberto de Oliveira, irmão de Renato Teixeira, Pena Branca e Xavantinho gravaram o primeiro disco.
Então as coisas começaram a acontecer. Convidados por Rolando Boldrin, os dois irmãos fizeram sucessivas apresentações no programa Som Brasil. A dupla também participou da abertura do MPB Shell, no mesmo ano. Posteriormente, em 1987, gravaram Cio da Terra, com Milton Nascimento.
A década de 90 veio com o reconhecimento da autêntica música caipira, linha seguida com firmeza por Pena Branca e Xavantinho. Apesar das dificuldades da carreira - recentemente eles tiveram um problema financeiro com um empresário -, ambos não descambaram para as facilidades do mercado.
ReproduçãoPena Branca e Xavantinho se apresentam hoje e amanhã no bar Água Viva, em Londrina, a partir das 22 horas. O show será aberto pela cantora londrinense Sabrina Vargas.
Gravamos o primeiro disco com muita dificuldade, tivemos que matar um boi por dia para mostrar que tínhamos uma proposta de trabalho, recorda Xavantinho. A dupla se manteve coerente quando a indústria fonográfica descobriu um rico filão na geração que incorporou música country à sertaneja. As novidades não são vistas com desprezo por Pena Branca e Xavantinho, desde que respeitem a música de raiz e não obedeçam tendências comerciais. A guitarra entrou na música sertaneja com Léo Canhoto e Robertinho, mas não chegou a alterar a estrutura. Pedro Bento e Zé da Estrada adaptaram músicas mexicanas, incluindo sopros e canções rancheiras, mas era música de raiz. Cascatinha e Inhana cantavam as versões que Zé Fortuna fazia de músicas paraguaias. Até então era uma maneira de combater a música americana, que dominou as rádios, mas ela se perpetuou com esse negócio de country, ressalta Xavantinho.
A conversa muda de tom quando se fala dos compositores caipiras: A gente fica firme com o pessoal de raiz, como o Pedro Bento e Zé da Estrada e Belmonte e Amaraí, são pessoas que respeitamos muito, acrescenta Pena Branca.
A dupla veio a Londrina divulgar o CD Coração Matuto, gravado no ano passado pela Paradoxx. No disco, Pena Branca e Xavantinho regravaram músicas como Planeta Água, de Guilherme Arantes, Morro Velho, de Milton Nascimento e Lambada da Serpente, de Djavan e Cacaso.
Vimos o Guilherme Arantes durante o MPB Shell de 81 cantando a música, e começamos a namorar esse trabalho. Quando entramos em estúdio, eu pensei: Vamos gravar, depois a gente conta para ele, revela Xavantinho. Morro Velho tem história similar: Era para termos gravado há dez anos, mas só deu certo no ano passado, quando o Milton estava doente. Mesmo assim ele cantou como nunca, comenta. Gravamos com o Milton Nascimento a cada dez anos, primeiro foi Cio da Terra, e agora Morro Velho, brinca Pena Branca.
Já Lambada da Serpente entrou no repertório pela proximidade com a música caipira: É muito bonita, dá uma lembrança de conselho de pai, de dia de chuva, é raiz, observa Xavantinho.
A dupla elogia também a nova geração de violeiros, incluindo Almir Satter e Roberto Corrêa: A gente gosta do estilo, hoje tem garotos novos que escrevem coisas muito bonitas. Antes o pessoal ignorava, agora tem o Pereira da Viola, o Tavinho Moura, além dos roqueiros, que estão usando a viola para temperar a agressividade da guitarra, analisa Xavantinho, lembrando que a maioria dos violeiros foram influenciados por Tião Carreiro.Dorico da SilvaPena Branca e Xavantinho: dupla defende a música de raiz e dá mostras de autenticidade no show que faz hoje em LondrinaRanulfo Pedreiro





