Liberdade provisória
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quarta-feira, 20 de novembro de 2002
Nelson Sato<br> Repotagem Local 
Uma inusitada gravação musical foi realizada na tarde de anteontem, no Conjunto João Paz, em Londrina. Curiosos da vizinhança colocaram a cabeça para fora das janelas para saber o que estava se passando na casa do DJ e produtor Ksk, que convidou o rapper Estilo para registrar sua voz num CD a ser lançado em dezembro.
A surpresa foi provocada pela chegada de Estilo, codinome de Reinaldo Fernandes da Cruz, que chegou ao estúdio de Ksk em um camburão acompanhado de uma viatura e sob escolta de quatro policiais militares. Na sessão, que durou cerca de 40 minutos, ele cantou o ''Rap contra o DST'' sobrepondo a voz às bases pré-gravadas.
Estilo, 23 anos, cumpre pena de três anos na Penitenciária Estadual de Londrina (PEL). Foi condenado por furto pelo artigo 155. ''Estou há um ano lá dentro. Daqui a seis meses, tiro a condicional'' anuncia ele. Ao pisar na cabine de som, o rapper colocou óculos escuros e gravou todos os takes com um policial a seu lado.
A faixa gravada vai fazer parte de um CD dedicado à luta contra a Aids e doenças sexualmente transmissíveis (DSTs), cujo projeto envolve a Unifil (através de alunos do curso de Enfermagem) em parceria com o Centro de Atendimento Integrado à Criança (Caic) da zona sul. O disco, produzido por Ksk, foi batizado de ''Revolucionários Alertando o Perigo Prevenção''.
Terá participação de vários grupos de rap de Londrina incluindo nomes como Irmãos do Gueto, Vocabulário Periférico, PZN, Realidade Street, Tribunal X e Liga Protestante 2. Alunos da Rede da Cidadania da Secretaria Municipal de Cultura também gravaram algumas faixas. ''Esse é um CD pioneiro. Não conheço outro que tenha sido lançado no Brasil com essa temática. O pessoal pesquisou para escrever as letras. Até os estudantes de enfermagem ficaram surpresos com os termos científicos utilizados em algumas músicas'' conta Ksk, que começa a mixagem do disco no próximo final de semana.
Antes de ser preso, Estilo atuou no movimento hip hop da cidade integrando o grupo Estilo Negro e posteriormente o Estilo de Rua, que criou em 1999. Mas o envolvimento com as drogas acabou jogando-o na criminalidade. Na cela, continuou escrevendo rimas indignadas. ''Tenho 18 letras prontas'' diz ele. ''Pretendo gravar um CD quando sair da cadeia. É meu sonho desde pequeno, e que não realizei por causa das drogas. Agora que estou firme de mente, quero narrar minhas experiências no presídio e mandar minhas idéias''.
A liberação para a gravação na tarde da última terça-feira foi autorizada pelo juiz corregedor após pedido da direção da PEL, que considerou importante a colaboração do detento à causa anti-Aids. A gravação foi sugerida por Ksk, ao saber da participação do rapper na comissão interna de saúde da PEL, que há duas semanas lançou uma cartilha de prevenção de DSTs para a população carcerária.
''Lá dentro, tem muito homossexualismo e os detentos não se cuidam muito para se proteger de doenças sexualmente transmissíveis como a sifílis, a crista de galo e a aids. Eu ajudo o pessoal a se cuidar'' salienta o rapaz, que se diz admirador dos rappers Mano Brown e MV Bill. O CD com sua participação será lançado no dia 1º de dezembro em solenidade na Avenida Saul Elkind, na região dos Cinco Conjuntos.


