Tutty Moreno jamais toca duas vezes uma música da mesma maneira. O baterista baiano, que já tocou e gravou em álbuns de artistas como Hermeto Pascoal, Milton Nascimento, Caetano Veloso e Chico Buarque, entre outros, é fiel à ideologia original do jazz: improvisar a cada compasso. A teoria está aplicada no segundo disco de Tutty, ‘‘Forças D’Alma’’. O CD inaugura o projeto da Secretaria de Cultura da Bahia de lançar instrumentistas baianos com tendências jazzísticas e traz dez faixas. Todas gravadas no Teatro da ACBEU, em Salvador, como se fosse um show sem platéia. ‘‘Foram três sessões de gravações com apenas dois dias de ensaio’’, revela Tutty, que viveu na capital baiana até os 21 anos e depois foi morar no exterior. ‘‘Troquei experiências com músicos de Londres, Los Angeles e Nova York antes de parar definitivamente no Rio’’, lembra o baterista, integrante do Quarteto Livre.
Nas sessões de gravação ao vivo, o baterista fez questão de não ficar preso a arranjos escritos em partituras e deixar os instrumentistas livres para criar. ‘‘Já nos ensaios as canções recebiam versões diferentes. É uma concepção contrária à da música atual, toda padronizada’’, compara Tutty. O baterista testou várias formas de tocar. Como o projeto previa, Tutty formou uma orquestra de cordas com sete instrumentistas baianos. O músico também contou com a participação da mulher, a cantora Joyce, em duas faixas. ‘‘Já tinha o título e pedi para ela compor Forças D’Alma’’, afirma o baterista, que também gravou com a mulher o baião ‘‘Baracumbara’’.
Mas a espinha dorsal do repertório do CD é construída com canções de Dorival Caymmi, já que o projeto previa que a maioria das faixas do disco teriam de ser de compositores da Bahia. ‘‘Era para só ter músicas do Caymmi. Mas houve problemas com as editoras e algumas tiveram de sair’’, lamenta Tutty. Além das quatro faixas de Caymmi - ‘‘A Lenda do Abaet钒, ‘‘Só Louco’’, ‘‘João Valentão’’ e ‘‘A Vizinha do Lado’’ -, o baterista incluiu duas de Luiz Eça - ‘‘Alegria de Viver’’ e ‘‘Imagem’’, parceria com Aloisio de Oliveira -, outra de Egberto Gismonti - ‘‘Sanfona’’ -, e a excelente ‘‘Samba Novo’’, de Durval Ferreira e Newton Chaves. ‘‘Para fazer este disco, precisava de músicos que além tocar bem, tivessem a mesma concepção musical que eu’’, reflete Tutty.
Para os sopros, resolveu chamar Nailor Proveta, indicado em 97 para o Grammy na qualidade de líder da big band paulista Mantiqueira. Como queria um baixista com afinidade e, ao mesmo tempo, independência para não ficar o tempo todo ligado na levada da bateria, convocou Rodolfo Stroeter, que conhece há 20 anos. Quem já estava com vaga garantida era o pianista e arranjador André Mehmari, que Tutty conheceu em 97 no projeto Arranjadores, em São Paulo, onde o músico o impressionou com uma versão para Insensatez, de Tom Jobim. ‘‘Enlouqueci quando ouvi o André. Foi o primeiro que chamei’’, confessa o baterista, que incumbiu o pianista de 20 anos dos arranjos de cordas e regência.
Ao escutar ‘‘Forças D’Alma’’, são evidentes as influências de jazzistas como Charles Mingus e da bossa nova carioca dos anos 60. Aliás, foram bateristas como Edson Machado, Dom Um Romão, Airton Moreira e Milton Banana que mais fascinavam Tutty. ‘‘Mas eles tiveram de sair do Brasil para ter algum reconhecimento e hoje ninguém os conhece. A música instrumental brasileira foi esmagada por modismos’’, desabafa Tutty.
Além de seguir a meta de ‘‘desconstruir para reconstruir’’, compartilhada por mestres como o baixista Mingus, Tutty fez questão de subverter a harmonia das músicas e não cair no lugar-comum de arranjar as canções no estilo padrão, alternando o tema com improvisos. ‘‘Padrão qualquer um mundo faz’’, garante o baterista.Luiza Dantas/Carta Z NotíciasTutty Moreno: ‘‘Para fazer este disco, precisava de músicos que além tocar bem, tivessem a mesma concepção musical que eu’’Baterista baiano Tutty Moreno lança ‘‘Forças D’Alma’’, um CD em que impera o improviso

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