Primeiro aparece a paixão, depois o casamento. Primeiro surge desavenças, depois a separação. Mais do que ironia do destino, o rompimento dos casamentos tornoou-se rotina no mundo contemporâneo. Amores e desamores sempre existiram através dos tempos, mas a coragem, ou o desprendimento, em desfazer um casamento nunca foi tão grande como nos dias atuais.
Em seu romance ''Intimidade'', o escritor inglês Hanif Kureshi focaliza o universo do final dos casamentos. De forma clara, reflete sobre a separação de casais a partir do exercício da liberdade ou, mais especificamente, do cultivo da intimidade individual.
Sobre a escolha do tema, Hanif Kureshi declarou que o casamento é uma daquelas coisas que as pessoas gostariam que continuassem para sempre, mas o fato é que a maioria deles acaba: ''Sem dúvida é perturbador quando um casamento vai mal. E, quando isso acontece, as pessoas tendem a se comportar de maneira não muito agradável. Falar disso incomoda as pessoas. Faz com que elas questionem a si mesmas, seus relacionamentos e a qualidade de suas vidas em comum.''
Publicado pela editora Companhia das Letras, ''Intimidade'' é a voz de Jay, um homem de meia idade que, após seis anos de casamento, constata que a relação chegou ao fim. A ausência de diálogo entre marido e mulher acelera sua decisão. Deseja a casa, a mulher e os dois filhos pequenos.
Jay é um homem que acompanhou as transformações dos anos 60 pautadas pela trilogia ''sexo, drogas e rock and roll''. Assistiu a falência do casamento de seus pais e a tentativa deles para manter a família em pé. Acredita nos benefícios da estrutura familiar e sabe que os filhos nunca saem ilesos de uma separação. Ao mesmo tempo não possui forças para a manutenção da relação de marido e mulher. A liberdade assume um valor maior.
A narrativa de ''Intimidade'' ocorre num único dia, aquele que antecede a derradeira fuga de Jay. O romance traz as reflexões do personagem sobre os últimos anos de seu casamento, sobre a dor de deixar os filhos, sobre suas constantes infidelidades, sobre a nova paixão, sobre seus ideais, medos e receios.
Reflexões de um homem diante de uma importante e complicada constatação: a morte do casamento. Reflexões para que a existência ganhe a força necessária para realizar a ação da mudança: ''Tento me convencer de que abandonar uma pessoas não é a pior coisa que se pode fazer a alguém. Talvez seja melancólico, mas não precisa ser trágico. Se a gente nunca deixa para trás nada nem ninguém, não sobra lugar para o novo.''
Quando publicou seu primeiro romance, ''O Buda do Subúrbio'', em 1990, Harif Kureishi foi aclamado como um promissor ''escritor pop''. Isso porque seus escritos continham a herança da contra cultura dos anos 60 e o contexto dos anos 70.
Como roteirista de cinema, seu trabalho mais conhecido é ''Minha Adorável Lavandeira'', levado às telas pelo cineasta Stephen Frears. Ao longo das décadas sua obra começou a se distanciar do universo pop para retratar transformações culturais e comportamentais. ''Intimidade'' foi transformado em filme por Patrice Chéreau e recebeu o prêmio de melhor filme no Festival de Berlim de 2002.
Nascido em Londres em 1954, filho de pai paquistanês e mãe inglesa, Hanif Kureishi é considerado um dos precursores em levar à literatura o florescimento do multiculturalismo. Vários de seus romances foram publicados no Brasil: ''O Álbum Negro'', ''O Dom de Gabriel'', ''No Colo do Pai'' e ''Tenho Algo a Te Dizer''.
Carregado de elementos autobiográficos ''Intimidade'', por seu grau de sinceridade, provocou algumas dores de cabeça para Kureshi, que teve que enfrentar a fúria da família. Aquele tipo de sinceridade capaz de dizer: ''A gente comete erros, se extravia, se distrai. Se o sujeito é capaz de ver seu avançar tortuoso como uma espécie de experimento, sem que deseje uma segurança impossível, chega a uma espécie de tranquilidade. Você pode, é claro, fazer experiências com sua própria vida. Mas talvez não com as vidas alheias.''

Se volto para casa e meus filhos não estão, mesmo que tenha muito a fazer ande de um quarto para outro, esperando ver suas faces na porta para animar o mundo com sua energia caótica.
  O que poderia ser mais importante? Perdido no caminho da minha vida, sem o rumo de casa, por que tipo de experiência imagino estar trocando tudo isso? Já desfrutei uma variedade excessiva de experiências emocionais com homens, mulheres, colegas, pais, desconhecidos. Já passei anos lendo, pensando, falando. Esta noite, de que vai me servir tudo isso? Talvez deva me impressionar com o fato de não me apegar às coisas, de estar solto e livre o bastante para cair fora, de manhã. Mas sou livre para quê? Indubitavelmente, a liberdade definitiva é escolher, recusar a liberdade em prol das obrigações que nos unem à vida n envolver-se.
(Fragmento de ‘‘Intimidade’’, de Hanif Kureishi)

SERVIÇO
Intimidade
Autor - Hanif Kureishi
Editora - Companhia das Letras
Tradução - Celso Nogueira
Páginas - 120
Quanto - 19,50

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