Evandro Mesquita vê a própria história no desejo do engenheiro trapalhão André, que interpreta em ‘‘Estrela-Guia’’, de assumir uma vida alternativa. Só que o ator não era tão anacrônico quanto o personagem. Foi no início dos 70, quando Evandro foi morar em Saquarema, reduto de surfistas na Região dos Lagos do Rio. Depois de oito anos sem fazer novelas, o ator-cantor reafirma na novelinha da Sandy que tem jeito para humor. E já chegou a se incomodar por sempre ganhar personagens com perfis parecidos. Como o surfista Saldanha, de ‘‘Top Model’’. Com um jeito acentuadamente carioca e um modo arrastado de falar, o ator pensou em nunca mais fazer novela após ser convidado a se retirar de ‘‘Mulheres de Areia’’, em 1993. ‘‘A autora implicou com meu sotaque’’, lembra.
A falecida Ivani Ribeiro pode não ter gostado do jeitão de Evandro, mas em ‘‘Estrela-Guia’’ ele é um poucos que tem carta branca para improvisar. Integrante e fundador do grupo teatral Asdrúbal Trouxe o Trombone, que reuniu entre 1973 e 1981 atores como Regina Casé, Luís Fernando Guimarães e Patrícia Travassos, Evandro não se contenta em decorar o texto e gravar. ‘‘Para mim é pouco’’, reclama. Por isso, acumula funções. Assinou, por exemplo, o roteiro de ‘‘Requebra’’, longa de Xuxa. Também é líder da Blitz, que faz shows pelo país apesar de estar sem gravadora.
Como é viver um engenheiro que quer virar natureba?
R - Divertido. O André é um hippie de final de semana com uma mulher que leva microondas para acampamento. Tenho a ver com o lado da natureza e dos animais, mas não sou tão estressado. O André tem uma inocência quase boçal e é um prato cheio para o humor. Para viver o Saldanha em ‘‘Top Model’’ peguei o jeito de amigos surfistas. Já o André tentei elevar ao máximo a neurose de um cara que não tem intimidade com o campo. Ele é urbanóide e se deslumbra com qualquer graminha.
Incomoda não ser lembrado para fazer galãs ou vilões?
Me incomodava o rótulo de natureba ou surfista, ligado ao humor e ao tipo carioca. E o Saldanha de ‘‘Top Model’’ marcou muito. As pessoas falavam: ‘‘o Evandro sempre faz o surfista’’. Mas enquadrar o artista é uma visão burra. No ‘‘Vida ao Vivo’’ pude fazer uma gama de personagens e foi ótimo. Desde o Asdrúbal, a filosofia é vivenciar o que se interpreta. Aí me falam: ‘‘pô, você improvisa o tempo todo’’. Mas é que não quero cair naquilo de esperar o outro ator falar, aguardar a deixa, dar a pausa e responder. É careta. Não quero ser um ator que decora texto e vai representar. Para mim é pouco.
Como você ganhou liberdade de improviso na novela?
Conquistando o respeito das pessoas. Tipo: ‘‘deixa, que isso é coisa do Evandro’’. Em ‘‘Fera Radical’’, cheguei para a Malu Mader e disse: ‘‘Mudei o texto e queria que você falasse outra frase...’’ e a Malu: ‘‘tá maluco, escreveu outra cena’’. Mudava desde esta época. Uma maneira rebelde de melhorar. Não gosto de novela, não me atrai. Mas é legal ouvir da autora que você é o único autorizado a botar ‘‘caco’’.
Você se considera um ator que não se enquadra nos moldes de fazer teledramaturgia?
Não sou o ‘‘outsider’’ mais bem-sucedido dentro da Globo. A Regina Casé conquistou um espaço invejável com ‘‘Muvuca’’ e ‘‘Brasil Legal’’. O Luís Fernando Guimarães também. O Asdrúbal trouxe uma semente diferente para a Globo no modo de interpretar. ‘‘Dancin’ Days’’ foi a primeira novela jovem e tinha traços fortes do Asdrúbal. Por isso mereço a Globo. Mereço ter um programa na Globo. Ela é minha também.

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