Lewis, criador sadomasoquista
Nos filmes de Jerry Lewis, é ele sempre quem assume integralmente o papel do cômico. Tudo gira ao redor dele, com uma espécie de egocentrismo que o coloca ao nível dos grandes comediantes da cena muda. Como diretor, revelou uma faceta inovadora que a comédia não tinha conhecido desde Buster Keaton, seja pela eficiência de sua ''mise em place'', pela elegância de seus movimentos de câmera e pelo caráter eminentemente cinematográfico de seus gags. Mas talvez a mais elaborada e mais requintada técnica para obtenção do riso trabalhada por Lewis talvez seja o ''slow burn'', isto é, algo como ''combustão lenta''.
Um exemplo brilhante desta comicidade que nasce do justo sentido de ritmo, do tempo e da arte da execução está em ''O Terror das Mulheres'', em exibição na próxima segunda-feira no Telecine Happy. Na sua função de faz-tudo no pensionato só de mulheres, o personagem Herbert recebe um gangster, namorado de uma das garotas. O visitante se torna vítima da total falta de habilidade de quem o recepciona, com atentados inqualificáveis contra o chapéu, o terno e o aspecto geral, até ficar transformado em autêntico farrapo humano. Toda a cena dura seis minutos e foi filmada num único plano, o que a faz o mais longo ''slow burn'' da história da comédia cinematográfica. Junte-se a isto o extraordinátio estudo psicológico constituído pelas sucessivas expressões da ''vítima'', a incredulidade perante o tratamento de que é objeto, logo ele, um assassino temível; o furor que não consegue exprimir por causa da própria estupefação, a frustração ao compreender que nada pode impedir o suplício e a resignação em aceitá-lo. Neste momento, Jerry Lewis sugere claramente as relações sadomasoquistas que podem existir entre o cômico e sua vítima. (C.E.L.J)





